6. GERAL 28.11.12

1. COMPORTAMENTO  O SKATE AGORA  FEMININO
2. COMPORTAMENTO  GENEROSIDADE INTERESSEIRA
3. DEMOGRAFIA  O CENSO DA DIVERSIDADE
4. PERFIL  ORGULHO DE SER DURONA
5. ENERGIA  A ROCHA QUE MUDAR O MUNDO
6. MEDICINA  BACTRIAS ENGORDAM
7. GENTE
8. SOCIEDADE  BASTA DE GENTE PELADA NAS RUAS
9. RELIGIO  JESUS NASCEU ANTES DE CRISTO
10. POLCIA  ELE FOI O MANDANTE
11. SADE  NOVAS ESPERANAS CONTRA A DEPRESSO
12. TECNOLOGIA  UMA ILHA EM MEIO  CRISE
13. TECNOLOGIA  O COMPLICADO DE LUXO
14. EDUCAO  FAMOSOS, MILIONRIOS E... PROFESSORES

1. COMPORTAMENTO  O SKATE AGORA  FEMININO
Andar em cima da prancha com rodinhas deixou de ser territrio 100% masculino e de gente desmazelada. As meninas desfilam de roupas bem justinhas e maquiadas.
DOLORES OROSCO

Quando estamos juntos, no existe um grupo mais arruaceiro, agressivo e arrogante que o nosso. A boutade, de 1977, foi lanada pelo californiano Tony Alva, um dos precursores do skate como movimento cultural associado ao esporte. Alva se referia a uma turma conhecida como os Z-Boys, que, nos anos 1970, inventaram o jeito de andar em cima de prancha e rodinhas tal como conhecemos hoje, pleno de manobras. Eles eram, para dizer o mnimo, meninos desmazelados: usavam roupas rasgadas, ostentavam o cabelo manchado de parafina, calavam tnis sujos e adoravam brigas (veja o quadro na pg. 94). Fizeram fama e at foram homenageados em um timo documentrio, Dogtown e os Z-Boys  Onde Tudo Comeou, de 2001. Quase quarenta anos depois daquele primeiro vento inspirador, o skate vive uma segunda reviravolta: agora, meninas bonitas, cheirosinhas e devidamente maquiadas dividem as ruas com marmanjos.
     O fenmeno, que naturalmente brotou nos Estados Unidos, j se espalhou pelas principais cidades do Brasil, como Rio de Janeiro e So Paulo. Adolescentes de bairros endinheirados esto encantadas com a sensao de ver o cho passando, do cabelo voando e tudo o mais que o skate, para elas, parece trazer: a paquera, os olhos de admirao de quem as v e  por que no  at a perda de calorias. O que deixa a novidade mais interessante  que a turma da Luluzinha no copia o visual desleixado, eco do passado, que ainda faz parte do perfil dos skatistas. As moas aprenderam a andar de skate com o namorado. Por isso, sempre esto arrumadas e gostam de mostrar as pernas, torneadas na academia, diz Renata Pasquini, presidente da Associao Feminina de Skate. A primeira leva de meninas skatistas no Brasil se deu em meados dos anos 1980. Naquele tempo, os skatistas eram sempre associados s brigas entre gangues de punks e gticos, porque as trs turmas tinham um trnsito misturado. Skatista era maloqueiro, e a mulher que andava com eles, marginalizada, diz Renata. O visual dessas meninas era muito parecido com o dos rapazes. A regra era corpo coberto, cala preta e camisa xadrez.
     Quem comeou a suavizar o estilo foram jovens cantoras e atrizes, como a canadense Avril Lavigne e a americana Miley Cyrus. As famosas brasileiras logo entraram na dana. A atriz Karina Bacchi teve aulas com Karen Jonz, brasileira, bicampe mundial de skate, e se apaixonou. Fao trechos curtinhos, na orla do Rio, diz Karina.  timo, porque curto o visual, tomo sol e ainda perco uns quilinhos. Thaila Ayala tambm no se aventura nas ruas, por causa do perigo dos carros e nibus. Levo meu cachorro para passear, e, pela coleira, ele vai me puxando pelo calado, diz Thaila. A apresentadora do GNT Cynthia Howlett entrou na onda e at sua filha, Manuela, de 5 anos, j d suas remadinhas. Andar de skate no  fcil, exige equilbrio e algum destemor. Um amigo tentou me ensinar, mas eu ca, no rolou, diz a atriz Giovanna Lancellotti.
     No Brasil, h 3,8 milhes de adeptos do skate e, de 2006 para c, o nmero de meninas esportistas subiu 72%. Atribui-se o crescimento ao sucesso internacional do carioca Bob Burnquist (o sobrenome vem do pai, americano), um dos grandes campees do esporte no mundo. Ele tem nove medalhas de ouro nos X-Games, a principal competio da modalidade. As vitrias de Burnquist ajudaram a firmar no Brasil a indstria do skate, diz Edson Scander, vice-presidente da Confederao Brasileira de Skate. Muitas grifes de roupas, tnis e acessrios chegaram por aqui nos ltimos trs anos. O passo natural foi a fabricao de shapes (como so chamadas as pranchas) coloridos e roupas delicadas. Os modelos mais caros chegam a custar mais de 1000 reais.
     A verso feminina do skate tem particularidades perigosas. A mais sria  que elas no usam proteo contra quedas. Muitos meninos tambm no, mas h que considerar como atenuante o tempo de prtica deles. Acho cafona, diz a analista de marketing Anna Staneck, 25 anos. A verso preferida  a longboard. Por ser grande, com pelo menos 1 metro de comprimento por 22 centmetros de largura, d estabilidade  pisada. Por causa do tamanho, no  ideal para a prtica de manobras, e sim para passeios, ou rols, na gria dos skatistas. Fao chapinha no cabelo e maquiagem leve para andar, diz a estudante paulistana Nathalia de Assis, 15 anos. A pista  mais frequentada pelas patricinhas, que aderiram agora  onda, entrega Sofia Nicoluzzi, 15 anos. O veterano Csar Gyro, de 50 anos, comemora a novidade de saias com ressalvas. No podemos esquecer que o DNA do skate  o da rebeldia, das manobras em locais proibidos, diz. O.k., mas a contribuio das mulheres, menos contestadora, indica novos e agradveis tempos.

GATINHAS EM QUATRO RODAS
Esquea o bon, a camiseta surrada e as calas folgadonas do passado  as meninas skatistas de hoje gostam de se arrumar.

Rosto - Maquiagem  fundamental, principalmente rmel. Protetor solar de filtro alto tambm.
Cabelo - Alisado com chapinha ou preso, ainda molhado, para criar ondas, que sero soltas na hora de andar.
Msica - Os fones de ouvido so daqueles grandes, ligados ao iPhone. Elas ouvem hip-hop e rock.
Em cima - No Rio e nas cidades de praia, muitas usam biquni, para pegar uma cor. Em So Paulo, preferem regata justinha.
Skate - Preferem o tipo longboard, porque  grande e d estabilidade. Gostam de pintar o shape com tinta spray e caneto.
Embaixo - Os shortinhos jeans so quase unanimidade.
Joelheira e capacete - Nenhuma usa. Elas dizem que, como fazem rols curtinhos, no se machucam.
Ps - A nica herana dos meninos: os tnis clssicos, escuros ou de cano alto, so os mais usados.

DO MAR PARA O ASFALTO
O skate surgiu nos anos 1950, na Califrnia, mas s ganhou personalidade vinte anos depois. Durante uma seca que atingiu o estado americano, um grupo de surfistas se cansou de esperar por ondas e levou as manobras para o asfalto. Tony Alva e Stacy Peralta eram os lderes de jovens briguentos que viviam enfurnados numa loja de surte em Dogtown, bairro pobre de Santa Monica. Associaram-se ao dono do estabelecimento, um imigrante chins, Jeff Ho, que fazia pranchas diferentonas: em vez de flores, exibiam as pichaes dos muros.
     Ho deu  turma o nome de Z-Boys e comeou a produzir skates para o bando. No incio, os meninos se divertiam em bancos de concreto ao p de vales. Depois, a procura por adrenalina os levou a outros terrenos  os privados. Eles invadiam manses para andar de skate dentro das piscinas. Por causa da estiagem, os ricaos ficavam meses sem aparecer nas casas e os meninos levavam bombas para secar de vez a gua que restava no fundo dos azulejos. O jeito de andar dos Z-Boys misturava velocidade, acrobacias inditas e deboche. Peralta e seus parceiros, hoje cinquentes, perderam o tnus e os cabelos, mas no o tino: so prsperos empresrios de moda colada ao skate.

COM REPORTAGEM DE LEO PINHEIRO


2. COMPORTAMENTO  GENEROSIDADE INTERESSEIRA
Um estudo de Harvard estabelece uma relao entre o hbito de dar gorjetas e a corrupo.
BIANCA ALVARENGA

     Dar gorjeta em troca de um favor pode ser considerado um ato de suborno? Um estudo publicado por pesquisadores da Harvard Business School, a escola de administrao da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, identificou uma instigante correlao entre o hbito de dar caixinha e a corrupo. Os autores do artigo Heres a tip: prosocial gratuities are linked to corruption (em traduo livre, Aqui vai uma gorjeta: gratificaes pr-sociais esto ligadas  corrupo) cruzaram informaes de 32 pases e concluram que tais aes, que  primeira vista parecem moralmente opostas, podem estar intimamente ligadas. Em resumo, naqueles pases onde  prtica corrente dar caixinhas o suborno tambm  uma constante. Dar gorjeta no faz parte do costume de neozelandeses e islandeses, e os cidados dessas nacionalidades esto tambm entre os menos sujeitos ao pagamento e recebimento de subornos, de acordo com o ndice de corrupo percebida, calculado pela Transparncia Internacional (veja o quadro com as correlaes na pg. 98). J o Egito, a Argentina e o Brasil aparecem entre as naes tidas como mais corruptas, e nelas a prtica de dar gorjetas  tambm disseminada. Os autores tentaram encontrar alguma correlao entre a corrupo e outras variveis econmicas e sociais, como o PIB per capita, a taxa de homicdios e at o valor do investimento na sade. Nenhuma delas, entretanto, revelou uma relao to estreita com a corrupo quanto o hbito de dar caixinha.
     A correlao no  100% perfeita, e os prprios autores afirmam que seu estudo  apenas um ponto de partida para anlises futuras mais profundas. Nossos resultados no pretendem explicar a corrupo de um pas, afirma Magnus Torfason, um dos autores do estudo. A inteno  simplesmente realar a relao existente entre gorjeta e suborno, mostrando que ela pode ser um dos muitos fatores responsveis pela existncia de corruptos. Existem, no quadro, algumas discrepncias por exemplo, casos de pases nos quais as gorjetas so frequentes mas que tm nveis de corrupo completamente distintos. Uma dessas incongruncias foi avaliada separadamente.
     Os autores do trabalho se detiveram na comparao entre o Canad e a ndia. Esses pases aparecem lado a lado quanto  propenso a dar caixinha, mas os canadenses esto entre os menos corruptos do mundo e os indianos figuram quase no topo dessa lista. Os autores, por meio de questionrios, quiseram saber quais eram as motivaes de canadenses e indianos para dar uma caixinha. Nas respostas, ficou evidente a diferena nas intenes. Na ndia, as pessoas tendem a dar gorjeta para desfrutar alguma vantagem no futuro. No Canad, a gratificao , normalmente, um prmio a um servio bem prestado. Para os autores, no se deve observar, portanto, apenas o hbito de dar caixinha, mas qual  o propsito de quem pratica esse ato de  aparentemente  simples generosidade.
     Assim, dar caixinha para assegurar um bom atendimento no futuro  um gesto derivado de motivao no muito diferente daquela que faz algum pagar propina para vencer uma barreira burocrtica em uma repartio pblica ou subornar um guarda de trnsito para escapar de uma multa. Essa  uma das manifestaes do famoso jeitinho brasileiro, citado, inclusive, no artigo de Harvard. Para Maria Cristina Ferreira, doutora em psicologia e autora de uma tese citada como fonte do estudo, o jeitinho, ainda hoje, no Brasil,  tratado muitas vezes como algo essencialmente positivo. As pessoas no veem a quebra da norma como um problema e no admitem que se utilizam desse artifcio, afirma Maria Cristina. O jeitinho seria uma forma de sobrevivncia, uma maneira de burlar a burocracia. O antroplogo Roberto DaMatta, em seu livro O que Faz o Brasil, Brasil?, atribuiu o jeitinho a uma maneira particular de os brasileiros fazerem uma mediao entre os seus interesses pessoais e as leis e regras universais, supostamente vlidas para todos. Segundo DaMatta, nos Estados Unidos, na Frana ou na Inglaterra as regras ou so obedecidas ou no existem. No Brasil, entre o pode e o no pode escolhemos ambos, afirma o antroplogo, e da nasce o jeitinho. Do culto ao malandro, o profissional do jeitinho,  rapinagem dos polticos,  um pulo. Quando der uma gorjeta, pense antes sobre quais so as suas reais intenes.


3. DEMOGRAFIA  O CENSO DA DIVERSIDADE
Um novo estudo feito sobre dados populacionais coletados em 2010 mostra uma particularidade dos casais homossexuais brasileiros: eles tendem a ter filhos.
GABRIELE JIMENEZ

     Uma das mudanas recentes mais notveis na sociedade mundial de que o Brasil no ficou de fora  a naturalidade em encarar o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Estimulados por leis, livros, filmes e novelas que tratam da homossexualidade como um fato da vida, os gays assumem sua orientao sexual sem constrangimento. H um forte componente de classe nesse fenmeno. Quanto mais ricas e mais instrudas so as pessoas, maior tende a ser entre elas a proporo de casais que se declaram gays. Um estudo feito pelo demgrafo Reinaldo Gregori, de So Paulo, tendo como base os dados do Censo 2010, confirma essa percepo  e revela uma surpreendente taxa de casais do mesmo sexo no Brasil que j tm filhos. Eles so 20%, em comparao com os 16% verificados nos Estados Unidos.
     O Censo 2010 foi o primeiro levantamento desse tipo feito no Brasil que tinha no formulrio a pergunta sobre o sexo do cnjuge. A resposta era optativa. Ainda assim, cerca de 68.000 pessoas  0,18% dos casais  declararam ter um parceiro do mesmo sexo. O censo mostrou que esse novo arranjo familiar est se tornando menos incomum no Brasil, diz Gregori.  presumvel que seja expressivo o nmero de casais gays que, em 2010, preferiu optar por no revelar sua condio. O censo confirma a tendncia de que os casais gays assumidos so mais numerosos entre os nveis sociais mais altos, com escolaridade e renda acima da mdia brasileira.
     Os dados computados pelo demgrafo Gregori mostram que, enquanto apenas 34% dos chefes de famlia heterossexuais possuem mais de dez anos de estudo, entre os casais homossexuais declarados esse nmero chega a 67% e seu rendimento mdio, de 5200 reais,  quase o dobro. A musicista Thais Musachi, 26 anos, e a pediatra Luciana Avelar, 38, juntas h cinco anos, encaixam-se perfeitamente nessa amostra, tanto no que se refere  renda e escolaridade quanto na tendncia de ter filhos. Elas conseguiram superar as barreiras biolgicas  reproduo recorrendo a um banco de esperma. Luciana gestou em seu tero dois embries. Um deles foi produzido com a juno de um vulo dela e o espermatozoide doado. O outro vulo foi retirado de Thais. Elas curtem agora um casal de filhos de 11 meses. Laura  mais parecida com Thais e Lucca lembra mais Luciana. Para ns, nunca foi importante saber quem gerou quem, nem fizemos exames de DNA para descobrir, diz Thais, que espera uma permisso judicial para colocar na certido de nascimento das crianas o seu nome ao lado do de Luciana.
     O caminho escolhido por Luciana e Thais para terem filhos  complexo, caro e, portanto, menos frequente. O mais comum  adotar. Mas para homossexuais as dificuldades so maiores do que aquelas enfrentadas por casais heterossexuais. Segundo uma pesquisa do Ibope feita no ano passado, 55% dos brasileiros consideram imprpria a adoo por gays. A ideia prevalente ainda  que os gays so promscuos e propensos a abusar sexualmente das crianas, diz a psicloga Mariana Farias, autora de livros sobre o assunto. Mariana lembra que a maioria das pessoas acredita erradamente que, por influncia da situao domstica, as crianas adotadas por gays fatalmente se tornaro homossexuais. Conclui Mariana: So conceitos desmentidos em estudos cientficos, mas que continuam a ter forte influncia.
     O psiclogo Carlos Henrique da Cruz, 51 anos, e seu parceiro, o professor Wagner da Malta, 49, foram confrontados com toda a carga de preconceito quando tentaram incluir o nome deles no cadastro de adoes em Natal, no Rio Grande do Norte, em 2004. O pedido de incluso foi negado. Disseram que ns no poderamos ser considerados uma famlia, conta Cruz. Eles conseguiram seu intento dois anos depois, no Recife, mas pelo cadastro individual feito por Cruz. Desde 2006, so pais de Prola, 11 anos, e Ptala, 9.
     As pesquisas apontam para o fato de que os casais gays no fazem as exigncias que, em geral, so colocadas como condio para adotar, entre elas que a criana seja ainda um beb, sem problemas de sade e da mesma etnia dos futuros pais. Duas decises tomadas recentemente pela Justia tambm contribuem para aumentar a chance de pessoas do mesmo sexo formarem uma famlia. Em 2010, o Superior Tribunal de Justia autorizou a adoo de uma criana por um casal de mulheres. No ano passado, o Supremo Tribunal Federal aprovou a unio estvel para os homossexuais. A falta de legislao especfica ainda deixa espao para interpretaes diferentes, mas a situao comea a mudar. A enfermeira Cecilia de Avila, de 53 anos, de Uberaba, Minas Gerais, havia colocado apenas seu nome nos pedidos de adoo de dois dos quatro filhos que cria com a artes Ana Cludia Santos, 45. Por sugesto do prprio promotor, iniciou os outros dois processos junto com Ana.
     Claro que no se pode exigir que todas as pessoas reajam com naturalidade diante de casais do mesmo sexo. Embora as estatsticas mostrem crescimento, esse arranjo ainda  novidade para muitos. Faz parte do cotidiano dos casais homossexuais lidar com doses diversas de estranheza. Quando samos os quatro juntos, as pessoas olham com muita curiosidade. Na escola nos apresentamos como pais adotivos, sem maiores explicaes. Mas as meninas falam abertamente que tm dois pais e alguns coleguinhas acham que  mentira, relata Cruz, o pai de Prola e Ptala. A artes Ana Cludia conta que Laura, a filha mais velha, passou por uma situao difcil. Uma menina disse que no ia mais ser amiga dela por nossa causa. Informamos a diretora, que conversou com a aluna. Laura, de 10 anos, vive h cinco com suas duas mes e aprendeu a driblar esse tipo de obstculo. Diz ela: No comeo, sentia um pouco de vergonha, mas hoje eu gosto de contar que tenho duas mes.


4. PERFIL  ORGULHO DE SER DURONA
A ginstica artstica brasileira, esperana desde j de grandes triunfos na Olimpada de 2016, ganhou uma olheira informal: a romena naturalizada americana Nadia Comaneci, 51 anos, cinco ouros olmpicos. Nos Jogos de Montreal, em 1976, ela hipnotizou o mundo ao conquistar o primeiro 10 numa competio de ginstica em Olimpada. Tinha 14 anos. Nadia esteve no Rio de Janeiro como convidada de honra de um campeonato estadual de ginstica e j deixou agendadas outras visitas aos atletas brasileiros. Considera que o Brasil tem as ferramentas para se sair bem: Um heri revelado em Londres, muitas crianas
querendo praticar esportes e uma Olimpada a caminho. Na contramo dos que julgam os treinos desumanos, ela acha o rigor indispensvel. A perfeio exige entrega total, diz Nadia, que vive em Oklahoma City, nos Estados Unidos, com o filho Dylan, 6 anos, e o marido, o ex-ginasta americano Bart Conner, com quem tem um centro de treinamento. A seguir, trechos da entrevista a VEJA.
HELENA BORGES

CHANCES DO BRASIL o que falta  aumentar a base, colocar um grande nmero de crianas para treinar seriamente em boas condies. Vocs j possuem o principal: uma medalha de ouro. A medalha  importantssima para criar um cone, um heri, que vai inspirar futuros campees. Daiane dos Santos tinha um desempenho incrvel no solo, mas, quando teve sua chance, falhou. Daniele e Diego Hyplito so bons atletas, mas depositar todas as fichas neles para 2016 no  sensato. J Arthur Zanetti, que ganhou o ouro, pode ir de estado em estado com sua medalha dizendo: Eu consegui.  possvel. Faltam quatro anos para a Olimpada, e na ginstica isso pode significar uma mudana completa. Quem sabe uma menina desconhecida que est treinando agora, aos 11 anos, no seja a grande revelao de 2016?

O 10 PERFEITO Eu no fazia ideia de como aquele momento iria mudar minha vida. Na hora em que o placar marcou 1.0, fiquei decepcionada, porque achava que merecia mais. A o locutor disse que a nota era 10, um nmero de dois dgitos, que o placar no estava preparado para registrar, e eu respirei aliviada. Mas no estava eufrica. Depois da prova, perguntaram-me como eu me sentia, e eu disse que j tinha tirado 10 em dezenove provas e que aquilo no era novidade para mim, sem atentar para a diferena entre a nota obtida em competies menores e aquele 10, o primeiro numa Olimpada. S tive noo do impacto daquela vitria quando cheguei a Bucareste e 10.000 pessoas me esperavam no aeroporto. Hoje eu sei que ali as portas se abriram para mim.

NOVOS TEMPOS As coisas mudaram muito. Os critrios so mais rgidos e tirar a nota mxima se tornou impossvel. No h como comparar meu desempenho na dcada de 70 com o de uma ginasta atual. Toda a minha equipe tinha de ser boa em todos os aparelhos. Agora as meninas se concentram em duas ou trs especialidades e se tornam as melhores em provas especficas. A alimentao tambm  completamente diferente e o peso se tornou uma obsesso. Mas um aspecto no mudou, ou talvez tenha ficado ainda mais rigoroso: a cota de sacrifcio e dedicao que o sucesso exige. A presso intensa e constante era e continua sendo parte indispensvel do treinamento do atleta que quer ser o melhor. Quem aguenta chega l. Quem no aguenta deve desistir logo, antes de fracassar.

DEDICAO PRECOCE Nunca fui de reclamar. Se me mandavam fazer dez repeties da mesma srie em um aparelho, eu fazia doze. Se era para fazer doze, fazia quinze. Chegar  perfeio  mais do que desafiar seus limites   ignorar seus limites.  estar sempre alm deles. Acho at graa quando as pessoas sentem pena de mim pela minha infncia de treinos duros. Falam como se eu tivesse perdido alguma coisa, e eu no perdi nada, pelo contrrio. Minha rotina de treinos era cansativa? Era. Doa de vez em quando? Doa. Mas nada na vida vem fcil, e isso eu aprendi cedo. Se pudesse voltar no tempo, faria tudo do mesmo jeito. Meu pai sempre disse que, se eu quisesse algo, deveria fazer acontecer, que s os fortes sobrevivem. A ginstica me fez ser forte, me deu disciplina, dedicao, obstinao. Acho que  por isso que me acham durona. E no fim meu corpo se desenvolveu normalmente, eu me sinto muito bem e conservada. Duvido que outras mulheres de 51 anos tenham a minha flexibilidade.

FUGA PARA O OCIDENTE Quando pisei nos Estados Unidos pela primeira vez, aos 14 anos, eu me senti como uma criana que chega  Disneylndia. Mas voltei para a Romnia e segui minha vida. Mais tarde, em outra visita aos Estados Unidos, meus tcnicos pediram asilo, mas eu preferi voltar. Foi uma ingenuidade. Dei um voto de confiana ao regime e, em troca, fiquei proibida de viajar sem algum para me vigiar. A frustrao com a falta de liberdade foi crescendo e decidi fugir. Aos 28 anos, cruzei a fronteira com um pequeno grupo de pessoas. Percorrendo lagos congelados, montes de neve e florestas, atravessamos a Hungria em direo  Noruega e de l ao Canad e aos Estados Unidos, onde fiz minha nova vida. Foi duro, mas no  uma experincia que me tire o sono. Fez parte da minha vida e passou.

EDUCAO E DISCIPLINA Custamos a entender que as escolhas feitas na infncia acabam afetando muito a vida adulta. As crianas de hoje no sabem disso, talvez porque os pais as protejam demais. Tenho um filho de 6 anos e tento lhe mostrar que nem sempre as pessoas vo passar a mo na sua cabea. Ele ainda no est pronto para a ginstica, mas gosta de brincar no ginsio. Uma vez me pediu para ter aulas de tnis, e eu o matriculei em um curso de um ms. No fim da primeira aula, ele disse que no tinha gostado e no queria ir mais. Eu respondi: No o obriguei a nada. voc comeou porque quis. Agora vai frequentar o ms inteiro, nem que seja para ficar vendo as outras crianas jogar. No sei se sou a me ideal, mas tento mostrar ao meu filho o que  compromisso e que cada ato dele tem consequncia.


5. ENERGIA  A ROCHA QUE MUDAR O MUNDO
O xisto, formao rochosa que contm uma fartura de gs e petrleo, pode levar os EUA  autossuficincia energtica  e alterar o jogo geopoltico
ANDR PETRY, DE TOWANDA, NORTE DA PENSILVNIA

     Na primeira vez em que um representante da indstria do gs apareceu em suas terras no distrito de Bradford, norte da Pensilvnia, John Williams no fazia ideia do que se tratava. O desconhecido disse que queria arrend-las para explorar uma jazida de gs. Pagava 170 dlares por hectare. Desconfiado, Williams no topou. Em 2006, quatro anos mais tarde, apareceu uma mulher que, em nome de outra empresa, fez uma oferta mais apetitosa: 400 dlares por hectare. Em 2007, com o mercado j em franca ebulio, o telefone de Williams chegava a tocar trs vezes por semana com algum fazendo uma proposta de arrendamento. Em 2008, finalmente ele cedeu. Arrendou por 5500 dlares o hectare, mais royalties, que, nos picos de produo, lhe rendem at 15.000 dlares por ms. Ele conta: Tive problemas para receber quando a empresa original transferiu o arrendamento para outra. Mas, no geral, no posso reclamar. Estou feliz.
     John Williams, 55 anos, pai de cinco filhos, sabe que faz parte de uma corrida que est provocando uma revoluo energtica nos Estados Unidos  e no mundo. Estudei o assunto, pesquisei bastante, diz. Por isso, no arrendei minhas terras para o primeiro que apareceu. Seu vizinho cometeu esse erro: pegou mseros 12 dlares por hectare. O norte da Pensilvnia  uma regio habituada  epopeia humana em busca de energia. Foi ali, em Titusvilie, que se perfurou o primeiro poo de petrleo, em 1859, dando a largada para a criao da moderna e poderosa indstria petrolfera. Agora, um sculo e meio depois, a Pensilvnia est, de novo, no epicentro de uma transformao radical da energia no mundo.
     Debaixo de suas terras, h uma enorme placa de xisto, uma formao rochosa de milhes de anos que aprisiona, dentro dela, uma imensa reserva de gs  o chamado gs de xisto. A rocha subterrnea  colossal no tamanho e no potencial. Estende-se do estado de Nova York a Ohio, passando pela Pensilvnia e Virgnia Ocidental. Calcula-se que contenha uma das maiores reservas de gs do mundo, capaz de atender  demanda americana, no nvel atual, por 100 anos. Numa coincidncia espetacular, a Marcellus, como a formao rochosa foi batizada, est no miolo de um dos maiores mercados consumidores de energia do mundo  as reas metropolitanas de Nova York, Filadlfia, Pittsburgh e Boston. Aubrey McClendon, um dos fundadores da Chesapeake Energy, companhia com mais de 10.000 empregados, assim descreveu a reserva da Marcellus: S pode ser interveno divina.
     H dcadas se sabe da existncia da Marcellus e de seu potencial, mas extrair o gs da rocha exigia uma combinao de tecnologia e baixo custo, que s se materializou no incio da dcada passada, quando se associou a perfurao horizontal com a tcnica do fraturamento hidrulico (veja o quadro na pg. ao lado). Desde ento, deu-se uma das maiores corridas de prospeco da histria moderna, segundo Tom Wilber, autor de Under the Surface (Debaixo da Superfcie), que narra a busca pelo gs de xisto. O resultado  estonteante. Em 2000, o gs de xisto representava 1% da oferta de gs natural no mercado americano. Agora, j chega a 30%. A perfurao horizontal e o fraturamento hidrulico logo passaram a ser tambm aplicados para extrair petrleo da rocha. A produo na formao de Bakken, na fronteira com o Canad, j levou o estado de Dakota do Norte a superar o Alasca no ranking da produo petrolfera.
     H duas semanas, o boom de petrleo e gs de xisto dos Estados Unidos foi reconhecido no relatrio divulgado pela Agncia Internacional de Energia, em Paris. O documento diz que os Estados Unidos sero o maior produtor de petrleo do mundo em 2017, superando a Arbia Saudita e a Rssia, atuais lderes mundiais. Em 2030, estaro exportando mais petrleo do que importam e, cinco anos mais tarde, sero autossuficientes em energia. A AIE j acertou na mosca, mas tambm j anunciou enormes bobagens.  prudente no tomar suas projees como destino. Mas, somando-se a explorao das jazidas de petrleo e gs de xisto, o incentivo s fontes de energia limpa (solar e elica) e as medidas para fazer carros mais econmicos, os Estados Unidos esto vivendo uma abundncia de combustveis fsseis  e falar em autossuficincia deixou de ser aquele sonho distante que os americanos buscam desde o governo Richard Nixon, nos anos 70.
     O impacto geopoltico da nova posio americana ser to potente que fica difcil antecip-lo. Os Estados Unidos abandonaro sua aliana de ferro com a Arbia Saudita? A China, alada  condio de grande compradora do mundo, se tornar o principal pas interessado na estabilidade do Oriente Mdio? A Europa se libertar da dependncia do gs da Rssia? Especialistas de duas universidades americanas, Harvard e Rice, uniram esforos para antecipar o cenrio mundial caso a produo de gs natural se mantenha em alta. No desenho mais otimista, a economia americana ser altamente beneficiada e o gs natural, farto e barato, poder at provocar um boom na indstria manufatureira, que muitos j davam como morta. Os pases do Oriente Mdio e a Venezuela tendem a ser enfraquecidos, j que o gs natural pode substituir o petrleo nas usinas de energia eltrica e em alguns setores da indstria. A China, consumidora voraz, poder usar a fora da demanda por energia para estreitar laos com pases produtores do norte da frica e Amrica Latina, sobretudo a Argentina, dona das maiores reservas de gs de xisto da regio,  frente do Brasil. Alm do boom americano, o Canad descobriu petrleo nas suas areias betuminosas e o Brasil, como se sabe, tem o pr-sal. Tudo somado, as Amricas podem virar um novo Oriente Mdio em termos de petrleo e gs.
O relacionamento da China e da Rssia era baseado em Marx e Lenin, mas agora  baseado em petrleo e gs, diz o especialista Daniel Yergin, autor de um livrao sobre a saga do petrleo. A geopoltica da energia costuma premiar e punir com igual intensidade. No reordenamento que timidamente comea a se esboar, os Estados Unidos tm tudo para ser o grande vencedor. A Rssia  uma forte candidata ao posto de grande perdedor. Desde que o alemo Willy Brandt e o sovitico Leonid Brejnev fizeram um acordo nos anos 70, pelo qual os europeus receberiam gs dos russos, Moscou ocupa uma posio dominante no fornecimento de energia  Europa. Os negcios e a malha de gasodutos resistiram at ao colapso sovitico, em 1991. Agora comeam a ser ameaados. A explorao do campo de Shtokman  um dos maiores do mundo, localizado no rtico russo  j foi arquivada porque o principal comprador seriam os Estados Unidos, que agora tm gs dentro de casa. A russa Gazprom, a maior produtora de gs do planeta, sempre usou sua influncia para selar contratos de longo prazo com a Europa indexando o preo do gs ao barril de petrleo. Talvez no tenha mais fora para tanto. A Europa, afinal, poder recorrer a outros fornecedores, at mesmo aos Estados Unidos.
     O gs natural emite 60% menos gs carbnico que o carvo e 30% menos que o petrleo, mas os ecologistas no gostam do fraturamento hidrulico. Alegam que a soluo de gua, areia e produtos qumicos injetada nos poos para fraturar a rocha pode contaminar a gua e o ar. Tambm dizem que o fraturamento do xisto aumenta o risco de terremotos. Na Frana, o fraturamento hidrulico est proibido. Na Alemanha, est suspenso, enquanto o governo estuda uma legislao que pretende ser rigorosa. Nos Estados Unidos, os protestos so recorrentes, mas as autorizaes, de modo geral, nunca deixaram de ser emitidas. A disputa para convencer a opinio pblica chegou s telas. No ano passado, um documentrio da HBO, Gasland (Terra do Gs), demonizando o fraturamento hidrulico, concorreu ao Oscar, mas no ganhou. Agora, no fim do ano, estreia Promised Land (Terra Prometida), em que Matt Damon faz um funcionrio de uma produtora de gs interessado em arrendar terras na Pensilvnia. As empresas petrolferas j revidaram com seu filme, Truthland (Terra da Verdade), que est sendo exibido em centros comunitrios.
     As preocupaes ambientais podem reduzir o ritmo da explorao do gs de xisto, mas dificilmente vo alterar uma realidade: o gs natural  o combustvel do futuro. Levar tempo. A transio de uma fonte de energia para outra , por definio, muito lenta. O prprio petrleo demorou quase um sculo para destronar o carvo da liderana mundial. Mas o gs tem futuro promissor como combustvel dos automveis. A frota americana de carros movidos a gs duplicou na segunda metade da dcada passada, mas ainda  ridiculamente pequena: 110.000 veculos, ou 0,1% de todos os automveis em circulao. No Brasil, h 1,7 milho de carros a gs. Como  flexvel, menos poluente, barato e farto, tudo sugere que, assim como o petrleo foi o combustvel do sculo XX, o gs tem tudo para ser o combustvel do sculo XXI  e isso mudar o mundo tal qual o conhecemos. 

TIRANDO LEO DE PEDRA
Com o fraturamento hidrulico e a perfurao horizontal, a extrao de gs ou petrleo das formaes rochosas de xisto tornou-se vivel  e est abarrotando os Estados Unidos de combustvel.
1- Quando a tubulao do poo de gs ou petrleo chega  camada de xisto, faz uma curva na horizontal
2- Uma soluo de gua, areia e produtos qumicos  injetada pela tubulao em alta presso, fracionando a rocha em torno da tubulao
3- Fracionada a rocha, o combustvel fssil  gs ou petrleo  preso dentro do xisto  liberado e escoa para a tubulao.

UMA VITRIA  AMERICANA
     A bonana de energia dos Estados Unidos  uma obra puramente americana. Comeou depois da II Guerra, quando George Mitchell, formado em engenharia de petrleo pela Universidade do Texas, se associou a uma pequena empresa de petrleo e gs. Ele tinha 27 anos. Com trs scios e uma secretria, a empresa ocupava uma saleta em cima de uma farmcia no centro de Houston. Em 2001, aos 82 anos, Mitchell vendeu-a por 3,5 bilhes de dlares.
     Filho de um pastor de cabras analfabeto que trocou a Grcia pelos Estados Unidos, George Mitchell cresceu pauprrimo. Perdeu a me aos 13 anos e, em seguida, o pai machucou-se gravemente num acidente. Mitchell e a irm mais nova foram morar com parentes. Ele queria ser mdico. Aos 17 anos, viu um poo de petrleo pela primeira vez e desistiu da medicina. Na poca, petrleo no era coisa de rico. Um barril custava 1,20 dlar (hoje custa 100 vezes mais). Mitchell sustentou os estudos na universidade vendendo doces e trabalhando como alfaiate para os colegas abastados. Mais de uma vez foi ameaado de expulso da universidade por falta de pagamento. Formado, lembrou-se do conselho de um professor: se quisesse ter um bom Chevrolet, deveria trabalhar na HumbLe (a Exxon do seu tempo). Se quisesse um Cadillac, era melhor ter seu prprio negcio.
     Em 1982, a Mitchell Energy estava a ponto de ficar sem gs para entregar ao cliente em Chicago. Mitchell, buscando uma nova fonte do produto, ps na cabea que tinha de haver um jeito econmico de extrair gs da Barnett, formao de xisto no Texas. A crise dos anos 80 acabou superada, mas Mitchell no desistiu da ideia inicial. Investiu 6 milhes de dlares. Passou quase vinte anos ouvindo os amigos dizer que estava jogando dinheiro, muito dinheiro, fora.
     O governo americano, tal como fez com os precursores da internet, entrou no lado certo. Estava dando incentivos  explorao de gs de fontes no convencionais, como o xisto. Mas a Barnett, por anos a fio, provou-se implacvel. At que, em 1998, a Mitchell Energy adaptou a tcnica do fraturamento hidrulico de tal modo que descobriu o segredo da Barnett. Eureca. Com o apoio do governo e a obstinao de um empreendedor que no vacilou em arriscar o prprio dinheiro, abriu-se o caminho para a revoluo do gs. O patrono viveu para ver. Est com 93 anos.


6. MEDICINA  BACTRIAS ENGORDAM
Sim, at elas. Estudos recentes mostram que a obesidade est tambm relacionada a um desequilbrio entre os micrbios que habitam nossos intestinos.
ADRIANA DIAS LOPES

     O tratamento da obesidade  um dos maiores embates da medicina. Parte da dificuldade est no fato de a doena jamais se manifestar isoladamente. O ganho de peso aumenta o risco de problemas cardiovasculares e de diabetes. Mas o maior entrave dos especialistas est em decifrar os mecanismos associados ao distrbio. A obesidade  causada por diversos fatores, com papis diferentes no desencadeamento dos males, a depender do caso. Ganha-se peso por problemas genticos, hormonais, ambientais e comportamentais. Recentemente, os pesquisadores identificaram outra causa: as bactrias encontradas nos intestinos. Um artigo publicado na revista cientfica americana Nature, resultado da compilao dos mais relevantes trabalhos conduzidos sobre o assunto na ltima dcada, esmiuou essa inslita relao. Um desequilbrio nas bactrias intestinais est atrelado a um processo inflamatrio, atalho para a obesidade. O desarranjo permite que fragmentos desses micrbios saiam de seu habitat (os intestinos), caiam na corrente sangunea e atinjam as clulas de gordura, alterando seu metabolismo. O passo seguinte  o acmulo de adipcitos (veja o quadro na pg. 122). O achado  um dos avanos mais interessantes da endocrinologia nos ltimos dez anos, diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin), de So Paulo. 
     A relao entre bactrias e obesidade comeou a ser estudada em meados dos anos 2000, quando o microbiologista Fredrik Bckhed, da Universidade Washington, em Saint Louis, observou que camundongos criados em ambientes estreis, ou seja, com pouco contato com bactrias, tendiam a ser mais magros em relao s cobaias que se expunham aos microrganismos. Bckhed fez ento um transplante da flora intestinal entre os animais. Por meio de cpsulas, os ratos magros receberam as bactrias presentes nos intestinos dos ratos gordos, e vice-versa. O resultado foi surpreendente: os magros ganharam peso e os gordos emagreceram. No incio do ano, um estudo da Universidade Yale, nos Estados Unidos, ajudou a detalhar quais micrbios esto associados  obesidade. A flora intestinal  composta de 100 trilhes de bactrias, divididas em duas principais classes: firmicutes e bacteroidetes. As primeiras so mais resistentes  ao do sistema imunolgico. As segundas, alm de mais vulnerveis, estimulam as clulas de defesa a produzir substncias anti-inflamatrias. Um organismo saudvel contm os dois tipos em quantidades semelhantes. Por meio de bipsias intestinais feitas nas cobaias de laboratrio, os pesquisadores de Yale mostraram que os ratos obesos apresentam uma quantidade maior de bactrias da famlia das firmicutes.
     O mais recente Congresso Europeu de Diabetes, realizado h um ms em Berlim, na Alemanha, trouxe ainda mais novidades. Pesquisadores do Centro Mdico Acadmico de Amsterd, na Holanda, um dos principais centros de referncia nos estudos sobre microbiologia, apresentaram os resultados de estudos sobre o assunto conduzidos em seres humanos. Nove homens com excesso de peso, portadores de diabetes tipo 2 e com a flora intestinal desregulada, receberam bactrias de nove homens magros e com os intestinos em equilbrio. Outros nove voluntrios, tambm acima do peso, serviram de grupo de controle. Depois de seis semanas, os voluntrios do primeiro grupo perderam cerca de 4 quilos, mantendo os hbitos de vida inalterados. Os outros no sofreram mudanas. Os organismos que emagreceram tambm melhoraram a sensibilidade  insulina, o hormnio responsvel por transportar glicose s clulas. No houve mais intervenes. Um ano depois, porm, os homens que emagreceram retomaram o peso inicial. Os resultados sugerem que o tratamento com bactrias dever ser contnuo, diz o endocrinologista Eliaschewitz.
     As recentes descobertas abrem caminho para o desenvolvimento de vrias frentes de tratamento contra a obesidade, at pouco tempo inimaginveis. Diz o infectologista Artur Timerman, do Hospital Edmundo Vasconcelos, em So Paulo: Uma das possveis estratgias a ser testadas  o uso de terapias que promovam o equilbrio da flora intestinal. Como, por exemplo, os probiticos, bactrias vivas consumidas na forma de iogurte, leite fermentado, cpsula ou sach. Pores com cerca de 1 bilho de microrganismos so atualmente ingeridas com o objetivo de regular o trnsito intestinal e reforar o sistema imunolgico de forma geral. Alm disso, os probiticos so chamados de bactrias do bem pela baixa agressividade, ou seja, pouca capacidade de ultrapassar os intestinos e cair na corrente sangunea  justamente o princpio de intoxicao que leva ao acmulo de clulas de gordura. Para que os probiticos possam ser indicados para emagrecer, ainda so necessrias pesquisas que atestem a eficcia do mtodo e determinem as doses ideais para a perda de peso. A expectativa  que, em dez anos, as bactrias da magreza estejam em campo na luta contra as bactrias da obesidade.

EQUILBRIO NECESSRIO
A flora intestinal  composta de 100 trilhes de bactrias, na maioria divididas em duas classes: as firmicutes e as bacteroidetes. Em organismos saudveis, h um equilbrio entre elas. Os obesos, porm, possuem cerca de 20% a mais de firmicutes.

Bactrias firmicutes
Caracterstica  possuem uma membrana protetora que as torna mais resistente  ao do sistema imunolgico.

Bactrias bacteroidetes
Caracterstica  So mais vulnerveis ao sistema imunolgico e estimulam as clulas de defesa a produzir substncias anti-inflamatrias.

Fonte: Artur Timerman, infectologista do Hospital Edmundo vasconcelos, em So Paulo.

COMO OS MICRBIOS INFLUENCIAM O GANHO DE PESO
O desequilibrio da flora intestinal facilita a sada de fragmentos bacterianos de seu ambiente natural, os intestinos, e altera o metabolismo das clulas de gordura.

1- a desregulao de bactrias inibe a ao da protena ocludina, imprescindvel para a impermeabilidade da parede dos intestinos.
Com isso, bactrias e pedaos de bactrias atravessam a parede dos intestinos e caem na corrente sangunea.
2- As clulas de defesa do organismo reconhecem e destroem as bactrias.
J os fragmentos de bactrias se ligam aos macrfagos, as clulas imunolgicas responsveis pela ativao do sistema imune.
3- Um dos tipos de fragmentos mais comuns e mos txicos  o LPS, pedao da parede das bactrias.
Ao se ligar aos macrfagos. Ele estimula a produo de substncias inflamatrias, as interleucinas.
4- As interleucinas formam uma barreira contra a ao da insulina, o hormnio encarregado de levar glicose s clulas do organismo.
Alm disso, inibem a produo de insulina pelo pncreas.
5- Esse bloqueio ocorre sobretudo nas clulas adiposas do abdmen, tornando seu metabolismo mais lento  o que propicia, consequentemente o acmulo de gordura.

Fontes: o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin), e Artur Timerman, infectologista do Hospital Edmundo Vasconcelos, em So Paulo.


7. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni

ESSE CARA  O REI
O especial de fim de ano de ROBERTO CARLOS sempre muitssimo esperado e quase nunca imprevisvel. Neste ano, o astro-rei e toda a constelao ao seu redor conspiraram para impressionar. Na gravao, a camisa mais aberta que o costume serviu de senha para as ousadias. Mas eis que a atriz CLUDIA ABREU, interpretando Chayene, sua personagem na extinta novela Cheias de Charme, tascou um beijo na boca do cantor. Foi um improviso dela, que o Roberto adorou, garante Dody Sirena, empresrio do cantor. O beijo, de to inesperado, vejam s, precisou at ser repetido, informa a Globo. Para as de corao fraco, h mais: Acho que ele est namorando; mas eu no sei quem, diz Adriana Carlos, cabeleireira de Roberto.

BELEZA NO DIV
A atriz BIANCA MLLER, 22, tinha feito apenas um pequeno papel na TV quando foi escolhida para estrelar umas das tramas centrais do seriado Sesso de terapia, do canal GNT. Assim, para viver Nina, uma adolescente mergulhada em mgoas, Bianca foi atrs de emoes de sua prpria histria. Aos 15 anos, a idade de Nina, eu tive bulimia. Era uma menina superagressiva e ansiosa, bem parecida com ela, diz Bianca. Descoberta por Selton Mello, diretor da srie, Bianca, formada em rdio e TV, tambm ancorou a personagem nas delicadas orientaes de Mello.  Ele me ensinou a tcnica do silncio recheado, em que atuo s com os olhos.  E pediu que eu roesse as unhas e andasse curvada, feito uma adolescente. A elogiada srie acaba no dia 30, e Nina e os outros pacientes da histria no viro na prxima temporada. Ela se sairia muito bem como uma vil dissimulada. Apesar de jovem, Bianca tem ferramentas emocionais variadas, diz Mello.

UM PRNCIPE NORMALZINHO
Ver algum famoso em uma situao cotidiana gera um interesse sempre desproporcional, dada a trivialidade do fato. Tratando-se do prncipe ingls WILLIAM, o efeito  brutal. H tempos a famlia real investe na imagem dele, j que a de seu pai, Charles, definitivamente no emplaca. A histria oficial da foto acima  a seguinte: a Fora Area Real (RAF), da qual William  piloto, quis mostrar um dia normal do tenente Wales, codinome dele. William foi flagrado tambm trabalhando no computador. As imagens ganharam o mundo e, nossa, a RAF percebeu que elas revelavam dados secretos! Rapidamente, eles foram apagados das fotos. Quem acreditou que William arruma a prpria cama?

VAI TER DE REBOLAR
Nem o noivo bonito nem a barriguinha da gravidez de seis meses so motivo para SHAKIRA parar de sacudir os calipgios quadris. Segundo o pai do beb, o jogador do Barcelona GERARD PIQU, o negcio  deixar a mulher danar porque assim ela no pensa muito. O mau gosto da declarao no chega perto do problema que Shakira enfrenta com o ex. Antonio de la Ra, filho do ex-presidente argentino Fernando, com quem ela viveu um longo romance, desfeito em 2010. Alm de namorado, Antonio era tambm empresrio da cantora e est na Justia dizendo que ela lhe deve metade de um apartamento em Nova York, de uma propriedade no Uruguai e mais 250 milhezinhos de dlares.

OS 50 TONS DE MARIANA
Saltos finos e altos, alm de dar gingado ao corpo feminino, servem para pisotear as costas de homens deitados, vendados e subjugados. Esse  o uso que a atriz MARIANA SANTOS jura ter feito dos seus sapatos em vinte festinhas sadomasoquistas com mais de cinquenta tons de cinza. Chicoteei uns, joguei cera quente em outros, mas pisar era o mais legal, diz Mariana, a Tet PM do Zorra Total. Acaba a a ousadia da atriz. Tenho pavor de avio. J fiquei em posio fetal, segurei na mo de desconhecidos e at j pus os dedos em copo com gelo para aliviar a tenso, diz ela. Mariana  uma comediante de raciocnio muito rpido.  o que faz o humor dela no ser bobinho, elogia J Soares, que, atualmente, dirige a atriz em uma pea teatral.


8. SOCIEDADE  BASTA DE GENTE PELADA NAS RUAS
Um decreto probe os moradores de So Francisco, na Califrnia, de andar nus na cidade, exceto em festas populares e na Parada Gay. Eles protestam... sem roupa.
FERNANDA ALLEGRETTI

     Na tera-feira da semana passada, um grupo de manifestantes agitava cartazes e gritava palavras de ordem no entorno da prefeitura de So Francisco, na Califrnia. Um detalhe os diferenciava dos personagens que costumam protagonizar esse tipo de protesto  eles estavam completamente nus. O motivo de seu descontentamento  a recente aprovao de um decreto municipal que probe os cidados de ficar despidos em pblico. So Francisco  conhecida pelos costumes liberais de seus moradores, e a nudez  tolerada em festas populares como a Parada Gay e a Folsom Street Fair, mais ou menos como ocorre no Carnaval carioca. Mas, concluram as autoridades, essa liberalidade est passando dos limites, principalmente no Castro, o bairro gay mais famoso do mundo.
     O responsvel pelo decreto foi Scott Wiener, supervisor que representa o Castro. O cargo d a ele poder legislativo e executivo. Wiener se diz cansado dos vizinhos exibicionistas, que frequentam parques, vo a restaurantes e se utilizam do transporte pblico despidos. Ele diz que a situao piorou muito nos ltimos dois anos. Disse Wiener a VEJA: Eu tolero o nudismo pblico moderado, mas, agora, no  mais uma situao espordica. Os nudistas mostram seus genitais a qualquer um que passa na rua, sete dias por semana. Outro incmodo  que esse tipo de comportamento atrai arruaceiros de outros bairros, que vm ao Castro s para tirar a roupa e fazer algazarra. Agora, quem sair pelado na rua estar sujeito a sanes. Nudistas primrios pagaro multa de at 100 dlares. Reincidentes no mesmo ano, at 200 dlares. Na terceira vez, o pelado ter de desembolsar at 500 dlares ou amargar um ano atrs das grades. Vestido.
     Os manifestantes da semana passada entraram com ao judicial contra a administrao da cidade. Eles argumentam que o decreto de Wiener atenta contra a liberdade de expresso, garantida pela Primeira Emenda da Constituio americana. A figura mais notria do grupo  Gypsy Taub, de 43 anos, Stripper na juventude, atualmente cuida dos trs filhos e apresenta um programa de entrevistas no canal local 29 em que ela e os convidados aparecem despidos. Crio meus filhos sem roupa a maior parte do tempo e os estimulo a frequentar eventos nudistas. A nudez no faz mal a ningum, disse Gypsy a VEJA. Esse decreto quer nos mandar de volta  era das trevas, exagera.
     A tolerncia com as diferenas  um trao notvel da civilizao ocidental contempornea, mas  necessrio que haja regras capazes de evitar que o comportamento de uma minoria possa ferir os cdigos sociais adotados pela maior parte da sociedade  ao menos nos espaos pblicos. J no sculo XVII o filsofo ingls Thomas Hobbes escreveu que o estado  fundamental para regular as aes humanas, dado o carter natural dos homens de buscar atender a seus desejos de qualquer maneira, a qualquer preo e de forma egosta. Em sua obra mais famosa, Leviat, ele enuncia que, num mundo sem governo nem regras, todos viveriam em guerra contra todos.
     Aqueles que se opem ao decreto ignoram o desconforto alheio e s veem a sua prpria liberdade cerceada. No acreditam que podem envergonhar uma me que brinca com seu filho no parque, deixar um casal de namorados desconfortvel no restaurante ou constranger uma senhora ao se sentarem nus ao lado dela no nibus. Para o filsofo Luiz Felipe Pond, da PUC-SP, os manifestantes agem como adultos mimados, que do extrema importncia a questes perifricas. Diz ele: H inmeras outras maneiras de se expressar: artes plsticas, msica, escrita. Aqueles que quiserem se exprimir tirando a roupa podero faz-lo em ambientes e momentos destinados a isso, diz.
     O decreto de So Francisco no se aplica a crianas de at 5 anos e ao topless feminino. Continua permitida a nudez nos grandes eventos pblicos, mas no na vida cotidiana da cidade. Caso a ao movida pelos manifestantes no seja bem-sucedida, eles tero at fevereiro, quando o decreto entra em vigor, para colocar suas calas e saias de volta. 


9. RELIGIO  JESUS NASCEU ANTES DE CRISTO
Maria deu  luz entre 7 e 6 a.C.. de acordo com o papa Bento XVI, em seu livro extraordinrio sobre a infncia do Salvador catlico. Quanto  estrela de Belm, ele admite que pode ter sido a exploso de uma supernova.
MARIO SABINO, DE PARIS

     Com a mxima vnia aos catlicos, para replicar a linguagem jurdica ora em voga no Brasil, o Esprito Santo deve estar preocupadssimo. Aos 85 anos, com o corao debilitado, o papa Bento XVI no est muito longe de terminar seu pontificado  e, no entanto, o problema determinante para al-lo ao Trono de Pedro permanece vivo. No conclave de 2005, no havia ningum com preparo intelectual e teolgico que se equiparasse ao do ento cardeal Joseph Ratzinger  e isso ficou claro nas poucas sesses de votao daquela eleio, mais uma sob os auspcios do Esprito Santo, segundo a crena catlica. Sete anos depois, o deserto cardinalcio parece ter aumentado. Sob o manto de Bento XVI, o alemo Ratzinger pode ter cometido tropeos na relao com os muulmanos e, certamente, sua velhice e problemas de sade s contribuem para a confuso administrativa que tomou conta da burocracia do Vaticano  e a maior ilustrao disso  o episdio do mordomo que roubou cartas pessoais do papa e de outros prelados, no escndalo batizado de Vatileaks. Mas no h um s cardeal capaz de comandar com idntica autoridade uma instituio que contabiliza mais de dois milnios. Esse dado se torna ainda mais evidente quando Bento XVI lana um livro. O ltimo deles  A infncia de Jesus, recm-editado em cinquenta pases. A erudio e a clareza na expresso de suas dvidas e certezas so as marcas desse autor que chega ao nmero de 66 obras publicadas, sem contar as encclicas, cartas apostlicas e outros documentos oficiais redigidos e assinados por ele.
     A infncia de Jesus completa a trilogia Jesus de Nazar, cujos outros dois volumes so Do Batismo  Transfigurao e Da Entrada em Jerusalm at a Ressurreio. Diz o papa em seu prefcio ao novo livro que se trata de uma porta de entrada para os anteriores, numa inverso cronolgica compreensvel, visto que h poucas linhas dedicadas ao Jesus menino e aos acontecimentos extraordinrios que precederam seu nascimento, nas descries dos evangelistas Mateus e Lucas, sobre as quais o papa concentra sua reflexo. Em seis captulos, somados o prefcio e o eplogo, Bento XVI procura estabelecer uma conexo respeitosa entre Velho e Novo Testamentos  os livros sagrados do judasmo e do cristianismo, respectivamente. Respeitosa porque no menospreza a religio judaica como mera antecipao do cristianismo, nem transforma o cristianismo no avesso da tradio precedente. Em sua primeira idade, Jesus, na viso do pontfice,  a semente de outra rvore to frondosa quanto aquela judaica  de que Ele se originou e com a qual mantm razes, mais do que comuns, entrelaadas. No  novidade, no catolicismo, garimpar no Velho Testamento passagens em que se associam falas de profetas sobre o advento do Messias com o nascimento de Jesus. Mesmo em missas com violo, celebradas por padres de passeata, tais conexes so tartamudeadas em protolnguas que nem o diabo entende. O novo  que um papa o faa de uma perspectiva histrica e com didatismo. Por exemplo, ao examinar a recomendao de Isaas ao rei Acaz, da tribo de Jud, no ano 733 antes de Cristo. O profeta diz a Acaz que a aliana com os assrios poder ter consequncias funestas, por implicar a falta de f no Deus nico e a aceitao da idolatria assria. Isaas, ento, fornece um sinal de como a realpolitik do rei contribuir para a necessidade de um recomeo para o judasmo. Eis que a jovem est grvida e ela vai gerar um filho que ser Deus entre ns, afirma o profeta. Em relao a esse longnquo episdio, o papa respalda a interpretao de Mateus de que Jesus  o Salvador anunciado sete sculos antes a Acaz  e num momento igualmente difcil para as tribos de Israel, estranguladas por tiranos ungidos pelos invasores romanos, como o rei Herodes, que mandou matar os prprios filhos.
     A Sagrada Famlia inscreve-se no mundo dos justos. Por justo, escreve Bento XVI, entenda-se aquele que segue estritamente as leis de Deus. Maria e Jos eram judeus exemplares, praticantes de todos os ritos, e criaram Jesus dentro de todos os preceitos de sua religio. No eram, contudo, bonecos manipulados por um grande titereiro.
     Na passagem que aborda a Anunciao, Maria  uma mulher de livre-arbtrio que consente, ao ser indagada pelo arcanjo Gabriel, em ser instrumento da vontade divina. Jos  um justo que, diante da possibilidade de repudiar em pblico sua noiva grvida, prefere faz-lo no interior da famlia, a fim de preserv-la  e que se convence da virgindade de sua futura mulher por meio do mesmo Gabriel que lhe aparece em sonho. Jos no tem ligao direta com Deus, porque cabe a ele distinguir, nos sonhos, o que  fantasia e realidade. Tal necessidade de discernimento o faz ainda mais justo.
     O papa narra o nascimento e a infncia de Jesus, baseado, como j se disse, em Mateus e Lucas. O primeiro foi um dos doze apstolos de Cristo. O segundo, no. Lucas, no entanto, foi um precursor da reportagem. Ele entrevistou Maria, diversos apstolos e outros contemporneos de Jesus, a fim de escrever seu Evangelho. A fidelidade de Lucas ao que ouviu  tamanha que, fosse hoje, ele seria acusado no Brasil de integrar a mdia golpista. Sem perder o norte de sua f e a confiana nos testemunhos histricos dos evangelistas, Bento XVI faz revises. A mais relevante  que, ao confrontar-se com registros romanos e a astronomia, ele abraa a tese defendida por muitos estudiosos de que Jesus nasceu, na verdade, entre os anos 7 e 6 a.C., e no na data estipulada pelo monge Dionsio Exguo, morto por volta de 550 d.C. O recenseamento feito a mando de Augusto na Judeia, durante o qual Maria deu  luz, de acordo com os Evangelhos, ocorreu entre aqueles anos, e no depois. Quanto  astronomia, o alemo Johannes Kepler, no sculo XVII, no s confirmou o alinhamento entre os planetas Jpiter, Saturno e Marte, um evento especial, tal como fora observado pelos babilnios naquela ocasio, como avanou a hiptese, agora chancelada pelo papa, de que na semana do nascimento de Jesus houve a exploso de uma supernova relativamente prxima  Terra  a estrela de Belm, o astro que iluminou o cu de maneira esplndida e indicou o caminho aos reis magos (ou s magos, como quer Bento XVI, integrantes de uma casta de sbios da Prsia), em sua viagem para homenagear o menino que redimiria a humanidade. Era voz corrente entre os antigos que um evento astronmico sinalizaria a vinda do novo rei dos Judeus. O papa ainda revisita o prespio, por assim dizer, ao concluir que as figuras do boi e do burrinho so apenas alegorias de humildade, cristalizadas pela iconografia medieval, e que os anjos no cantaram a glria de Deus aos pastores instados a presenciar o nascimento de Jesus em uma gruta (o estbulo tradicional  outro aspecto que Bento XVI credita a um equvoco iconogrfico). Eles simplesmente lhes comunicaram.
     Como achar crvel a virgindade de Maria e a ressurreio de Cristo  de um corpo concebido em comunho com o Esprito Santo e no corrompido pela morte? Esses dois fatos so um escndalo para o esprito moderno. Concede-se a Deus operar sobre as ideias e os pensamentos, na esfera espiritual, e no na material. Isso perturba. Mas, se Deus no tem poder tambm sobre a matria, ento ele no  Deus, diz Bento XVI. Melhor um papa que tenta convencer os que no creem do que um que manda queim-los em fogueiras ou s repete dogmas como um seminarista bem adestrado   dessa forma alis, que os boffs progressistas tentam pintar Ratzinger, sem sucesso. O Esprito Santo, se houver um, deve mesmo estar preocupado com o prximo conclave.


10. POLCIA  ELE FOI O MANDANTE
Macarro, o amigo inseparvel, rompe com Bruno e diz que foi por ordem do ex-goleiro que levou Eliza Samudio para um encontro do qual ela nunca mais voltou.
LESLIE LEITO E MARCELO SPERANDIO

     Acomodado no banco dos rus do tribunal de Contagem, Bruno Fernandes, 27 anos, ex-goleiro e dolo do Flamengo, comeou a semana confiante. Seu julgamento foi adiado e ele acreditava que seu ex-funcionrio e brao direito Luiz Henrique Romo, o Macarro, seguisse fiel  estratgia de negar at o fim o envolvimento no sequestro e morte de sua ex-namorada Eliza Samudio, em junho de 2010. Mas a frentica ciranda de manobras engendrada nos bastidores para favorecer Bruno, postergando seu julgamento, resultou em um tiro no p: sua condenao agora  dada como praticamente certa. Vendo-se abandonado  prpria sorte na sala do jri, o at ento fiel Macarro decidiu falar o que nunca tinha dito contra o goleiro. Fez um relato arrasador dos ltimos dias de Eliza. Para surpresa de quem via nele um escudeiro inseparvel, acusou claramente Bruno de ser o mandante de tudo, alm de indiretamente confirmar que Eliza est morta, o que at ento negava. Como era de esperar, tentou amenizar o prprio papel na brbara trama. Eu disse: Bruno, deixa essa mina em paz . O goleiro teria reagido:  comigo. Est tranquilo.
     As verses para o desaparecimento de Eliza foram mudando ao sabor das convenincias. Assim que o caso veio  luz, os advogados que naquela poca defendiam os cinco rus  alm de Bruno e Macarro, sua ex-mulher Dayanne Souza, a ex-namorada Fernanda Gomes de Castro e o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola (este, o suposto matador de Eliza)  tentaram desqualificar o homicdio em razo da ausncia do corpo. S que, nessas circunstncias, o Cdigo Penal de 1941 prev, sim, a acusao de homicdio desde que se rena um slido conjunto de provas tcnicas e testemunhais  um princpio, alis, de consenso internacional. E foi o que ocorreu no assassinato de Eliza. A polcia trabalhou com vestgios de sangue no carro de Bruno, rastreamento de antenas de celulares, restos de objetos dela queimados no quintal do stio do goleiro e o depoimento dos envolvidos para reconstituir os fatos. Montado o processo, os advogados de defesa optaram, ento, pela alternativa de incriminar Macarro. Cultivou-se a suspeita de uma relao homossexual entre ele e Bruno, que o teria levado a estrangular Eliza num acesso de cime  o plano B citado numa carta do goleiro interceptada na priso e revelada por VEJA.
     Por algum motivo  lealdade, interesse financeiro, medo de ser morto , o ex-brao direito de Bruno estava mesmo disposto a ir para o sacrifcio. Mas, ao ver o julgamento do goleiro desmembrado do seu, teve a sensao de que fora trado. Tratou de atenuar, claro, sua prpria participao. Disse que Eliza no foi sequestrada, mas o acompanhou de livre vontade at o stio do goleiro. L, no a manteve em cativeiro  ela circulava livremente. Na noite do crime, no a levou at a casa de Bola nem presenciou seu estrangulamento, mas s a transportou at um Palio preto, assim mesmo contra a vontade e por ordem de Bruno. Negou at conhecer Bola na poca, embora o rastreamento aponte dezenas de ligaes entre os dois. No sou esse monstro que todo mundo est falando, afirmou, em lgrimas.
     Entre os advogados que passaram a semana envolvendo-se em conchavos e trapalhadas, destacou-se o muito bem conectado defensor rcio Quaresma, o nico a participar do processo desde o incio, quando foi chamado para defender o grupo. Ele acabou perdendo Bruno e outros trs clientes depois de ser flagrado fumando crack numa favela mineira. Restou-lhe o ex-policial Bola  e uma ascendncia sobre todos os demais rus inexplicvel em sua condio de ex-advogado. Bola foi justamente o primeiro a ter o julgamento adiado porque Quaresma se demitiu (para logo ser readmitido). Dizendo-se inseguro, Bruno, por sua vez, dispensou seu advogado. Lcio Adolfo, o novo defensor do goleiro (e que tambm defendeu o traficante Fernandinho Beira-Mar), e Leonardo Diniz, o de Macarro, fazem parte do crculo de influncia de Quaresma, que comemorou a confisso do ex-funcionrio de Bruno: Ele inocentou meu cliente. Nos bastidores da defesa, diz-se que Bola  justamente um dos trunfos de Quaresma  todos morrem de medo do ex-policial. O outro seria um vdeo que estaria em seu poder, no qual o goleiro confessa o crime. O prximo captulo desse filme B est marcado para 4 de maro, quando Bruno e Bola sero enfim julgados.


11. SADE  NOVAS ESPERANAS CONTRA A DEPRESSO
A cetamina, usada desde a dcada de 60 como anestsico, revela-se um potente antidepressivo e abre uma linha indita de estudos sobre a doena que afeta 38,8 milhes no Brasil e esta sempre associada a outros problemas.
NATALIA CUMINALE

     O psiquiatra americano Carlos Zarate, chefe do programa de terapias experimentais para transtornos de humor e ansiedade do Instituto Nacional de Sade Mental dos Estados Unidos, comeou a acompanhar um advogado de 40 anos quando o paciente j estava mergulhado na depresso. O encontro com o demnio do meio-dia  na bela e incmoda definio autobiogrfica do escritor Andrew Solomon, autor de um pequeno clssico sobre o tema, de 2001  tivera incio dez anos antes. Com o avano da doena, o jovem bem-sucedido afastava-se silenciosamente dos amigos e da famlia. Deixou de trabalhar. Trancou-se no quarto, isolando-se de tudo e de todos. Durante um longo perodo, a comunicao entre ele e a mulher e os filhos acontecia apenas por meio de bilhetes colocados debaixo da porta: Papai, sinto sua falta. Amo voc. Os banhos tornaram-se espordicos e o barbear foi abandonado. Ele se alimentava de comida fria, sem se importar. Pensou em suicdio diversas vezes. Como acontece com muitos doentes, o advogado no respondeu a nenhum dos tratamentos disponveis atualmente  dos antidepressivos s terapias mais agressivas, como o eletrochoque.
     S o tirou da letargia atavicamente associada  depresso um remdio ainda experimental  a cetamina, usada como anestsico em pequenas cirurgias de seres humanos e tambm de animais. Voltei a v-lo logo depois da medicao e ele era outra pessoa, estava barbeado, disposto e fazia planos para o futuro, lembrou a VEJA o psiquiatra Zarate. Foi uma transformao impressionante, num curtssimo espao de tempo. Na recente definio de um artigo na prestigiosa revista cientfica Science, a cetamina  indiscutivelmente a descoberta mais decisiva para o tratamento da depresso em meio sculo. Desde 2004, Zarate j tratou pelo menos 120 pacientes com o medicamento.
     A mais comum das doenas psiquitricas, a depresso atinge quase 20% da populao mundial  o equivalente a 1,4 bilho de pessoas, das quais 38,8 milhes no Brasil. Apesar de todas as conquistas mdicas, entre 30% e 40% dos pacientes no encontram alvio algum com os recursos teraputicos desenvolvidos at hoje. A cetamina  uma luz nessa escurido probabilstica. Aperfeioada na dcada de 60 para o atendimento aos soldados americanos durante a Guerra do Vietn, a cetamina foi usada, nos anos 90, como um alucingeno (ilcito, ressalve-se) de adeptos do movimento clubber, gente que varava a madrugada em casas noturnas movimentando-se no bate-bate do ritmo tecno. O modismo qumico passou  dele restaram pessoas devastadas e o conhecimento das engrenagens metablicas da droga. Lquida em sua forma comercial, como antidepressivo, a cetamina comea a fazer efeito cerca de quarenta minutos depois de sua aplicao. As primeiras reaes aos remdios tradicionais demoram de trs a quatro semanas. Explica-se: a cetamina tem uma forma de ao indita. Desde os medicamentos pioneiros, a iproniazida e a imipramina, descobertas em meados nos anos 50, todos os remdios contra a depresso agem sobre um mesmo grupo de neurotransmissores, as monoaminas, responsveis pela regulao do comportamento, da emoo e do humor. A serotonina, a dopamina e a noradrenalina esto entre as principais monoaminas, sobre as quais atua a maioria dos frmacos disponveis nas farmcias.
     A cetamina, no. Ela regula as taxas cerebrais de glutamato, neurotransmissor com ao excitatria sobre o crebro. Em excesso, o glutamato  txico, dificultando e at interrompendo as conexes entre um neurnio e outro, as chamadas sinapses  essenciais para o bom funcionamento cerebral. A presteza com que a cetamina resgata o depressivo do afogamento psicolgico explica-se tambm pelas reas onde atua. Como todos os antidepressivos, ela age no hipocampo e no crtex pr-frontal, regies do crebro associadas  modulao do humor e ao processo de cognio, em especial a memria e o aprendizado (veja o quadro nas pgs. 156 e 157). Somente a cetamina, no entanto, consegue chegar ao crtex cingulado anterior, a poro cerebral relacionada ao autocontrole. A cetamina interrompe o processo degenerativo das sinapses, diz Priscila Rocco, psiquiatra da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp). E faz isso de forma muito rpida e eficiente.
     Nos casos mais graves, o ganho de tempo proporcionado pela nova substncia pode representar a vitria da vida sobre a morte. Cerca de 1% das mulheres depressivas e 7% dos homens nas mesmas condies cometem suicdio. em uma frequncia vinte vezes maior do que a registrada na populao em geral. Aqui um parntese: muitos desses doentes esto em tratamento. Nas duas primeiras semanas de uso dos antidepressivos, o corpo j d sinal de melhoras, de recuperao de energia, mas a mente ainda no, continua mergulhada no desespero.  quando ocorre a maioria dos suicdios.
     Dada a ligeireza com que recupera o paciente, mental e fisicamente, a cetamina vem sendo utilizada de modo off-label (fora do rtulo, em traduo literal) em emergncias psiquitricas dos Estados Unidos. As substncias com ao em glutamato so, sem dvida alguma, a aposta da medicina para uma nova gerao de antidepressivos, diz o psiquiatra Rodrigo Machado Vieira, coordenador do Programa de Transtornos do Humor do LIM27, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clnicas, da Universidade de So Paulo (USP), e um dos principais nomes por trs das pesquisas com cetamina. Seis novos compostos antidepressivos que agem na regulao do glutamato esto em fase adiantada de pesquisas pela indstria farmacutica. Uma delas investiga a criao de um spray nasal.
     H ainda um longo caminho a ser percorrido at que a cetamina saia dos laboratrios e possa ser comercializada como instrumento de combate  depresso. O principal desafio  encontrar medicamentos que, alm de ter ao rpida, sejam de fcil administrao, causem menos reaes adversas e apresentem resultados mais duradouros. Sob a forma de injeo, a cetamina s pode ser aplicada em ambiente hospitalar, de preferncia com o acompanhamento de um anestesista. Durante os quarenta minutos de durao do procedimento, o paciente pode ter a sensao de dissociao entre o corpo e a mente, como se formas, cores e movimentos se embaralhassem. A experincia se encerra com o fim da aplicao. A dose de cetamina usada para fins antidepressivos  metade da utilizada em anestesias e, por isso, no oferece riscos aos sistemas cardiovascular e respiratrio  numa poro de apenas um sexto da quantidade geralmente consumida como droga ilcita nas baladas. Outro ajuste necessrio  cetamina se d no tempo de ao do medicamento. Duas semanas depois da aplicao, seus efeitos antidepressivos se extinguem.
     Os desafios impostos  medicina para o controle da depresso resultam da complexidade da doena. Suas origens biolgicas e suas causas ainda no foram totalmente desvendadas. Fatores genticos, ambientais e psicolgicos a tornam ainda mais obscura. Algum que tenha o pai ou a me vtima do problema tem um risco 40% maior de tambm desenvolver depresso. Graas aos avanos nos exames de imagem, capazes de flagrar a atividade cerebral, j ficou demonstrado que algumas reas do crebro, em decorrncia da morte de neurnios associada  doena, so menores se comparadas s de pessoas sem depresso.  o que acontece com o sistema lmbico, uma das regies mais primitivas do crebro, responsvel pela manifestao involuntria das emoes.
     Alm disso, o crebro no  o nico rgo envolvido na depresso. Definitivamente, no. A doena est relacionada a um desequilbrio metablico com impacto em quase todo o organismo. A depresso, por isso, nunca vem sozinha.  como o desenho daquela pedrinha que, jogada na gua, gera crculos concntricos que se ampliam. As alteraes fisiolgicas deflagradas por um quadro depressivo manifestam-se tanto sob a forma dos sintomas da doena quanto no desenvolvimento ou agravamento de outros distrbios (veja os quadros nas pgs. 154 e 155). Um bom exemplo das mltiplas reaes provocadas pela depresso  o que ocorre com o cortisol, o hormnio do stress. Em circunstncias normais, os nveis da substncia no sangue seguem um ritmo muito bem definido: so altos pela manh (do contrrio, no sairamos da cama) e vo diminuindo ao longo do dia. Entre as vtimas de depresso, os nveis de cortisol tendem a permanecer nas alturas  ininterruptamente. A partir da, as consequncias para o organismo so to amplas quanto nefastas. Em quantidades elevadas, o hormnio do stress afeta o equilbrio entre o HDL, o colesterol bom, e o LDL, o ruim, eleva a presso arterial e aumenta a coagulao sangunea, o que eleva o risco de infartos e derrames. Alm disso, favorece a manifestao de doenas autoimunes. Quando uma pessoa saudvel contrai uma gripe, por exemplo, o sistema imune reage, aumentando a quantidade de linfcitos, nossas principais clulas de defesa. A partir do momento em que a infeco comea a ceder, o nmero dessas clulas se reduz, como se elas voltassem para o quartel  espera de uma nova ordem de ataque. Em um quadro depressivo, os linfcitos permanecem ativos o tempo todo, atacando rgos e tecidos do prprio organismo  e  esse o cenrio das doenas autoimunes.
     Intrincada, a depresso impe um tratamento adequado para cada caso. Ela muda de feies de acordo com a biologia e as experincias emocionais de uma pessoa. Erroneamente, a depresso est associada a um quadro de tristeza profunda, diz Fernando Asbahr, coordenador do programa de ansiedade na infncia e na adolescncia do Instituto de Psiquiatria da USP. Mas h vrias formas de manifestao da doena. Alm da depresso clssica, existe a depresso ansiosa, cujos sintomas vm acompanhados de inquietao e desconforto. H ainda a psictica, cuja vitima  acometida por delrios e alucinaes: a ps-parto e a sazonal, mais comum nos pases nrdicos, principalmente no inverno e no outono. H pacientes que respondem melhor aos antidepressivos mais antigos, os tricclicos: outros, aos remdios mais modernos. Uma das mais recentes novidades no campo da farmacologia  o desenvolvimento da agomelatina, o nico composto antidepressivo com ao em melatonina, o hormnio do sono. Fabricado pelo laboratrio francs Servier, vendido sob o nome comercial de Valdoxan e comercializado no Brasil desde 2009, o remdio interfere em um dos sintomas mais frequentes da depresso, a insnia. A relao entre as duas  to estreita que pode ficar difcil definir o que  causa e o que  consequncia. O risco de que algum com problemas para dormir venha a sofrer de depresso triplica em comparao com quem no tem insnia. J a probabilidade de um depressivo ser um insone  quinze vezes maior em relao a quem no sofre da doena psiquitrica. No   toa, portanto, nesse bal emocional, que apenas 37% dos pacientes encontram alvio no primeiro medicamento prescrito por seus mdicos. Nos demais casos, o trabalho  de tentativa e erro.
     Alm das pesquisas para desenvolvimento de novos antidepressivos, das quais a cetamina  a grande estrela, outra rea de estudos promissora  a que busca marcadores biolgicos capazes de determinar a terapia mais adequada a cada paciente. H desde diferenas na anatomia cerebral, que podem ser detectadas por meio de exames de imagem, at o modo como o crebro reage a determinados estmulos. J identificamos vrios marcadores para depresso, disse a VEJA a psiquiatra Maria Oquendo, diretora da diviso de estudos clnicos de imagem molecular e neuropatologia da Universidade Colmbia, nos Estados Unidos. Mas estamos diante de uma doena to complexa que o mais provvel  que tenhamos de recorrer a uma combinao de marcadores para determinar a resposta de um paciente a determinado tratamento. A expectativa  que em dez anos esses conhecimentos possam ser usados na prtica clnica. Em busca de mtodos de diagnstico mais precisos, tratamentos mais seguros e medicamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais, a medicina tenta conter o avano da doena que, para voltar  descrio elegante de Andrew Solomon, era uma coisa sugadora que se embrulhava  minha volta, feia e mais viva do que eu. Com vida prpria, pouco a pouco asfixiara toda a minha existncia (...) Ela continuava a empanturrar-se de mim quando j parecia no ter sobrado nada para aliment-la.

O MAPA DA DOENA
De 15% a 20% da populao mundial sofrer de depresso em algum momento da vida.
50% desses pacientes sero vtimas da forma mais grave da doena.
20 vezes maior  a probabilidade de suicdio entre os depressivos, quando comparados  populao em geral.
30% a 40% dos doentes no respondem aos tratamentos disponveis atualmente.
Apenas 1/3 dos pacientes se recupera plenamente com o uso de antidepressivos tradicionais.

ELE NO VEM SOZINHA
A depresso  uma doena extremamente complexa, com impacto em diversos sistemas cerebrais e em outros rgos. Por isso, na imensa maioria dos casos, ela vem acompanhada de outras complicaes de sade  de insnia a doenas cardiovasculares, de diabetes a demncias e outros transtornos psiquitricos associados. Nem todas essas relaes foram completamente explicadas pela cincia. A principal hiptese  que o desequilbrio metablico em vrios sistemas e rgos (e no apenas no crebro, como anteriormente se pensava) associado aos quadros depressivos comprometa o bom funcionamento do organismo como um todo, podendo levar  morte celular e a doenas no presentes at ento.

Risco (comparao entre depressivos e pessoas sem o problema) 3 a 20 vezes maior de ...
....distrbios de ansiedade (fobia, pnico e transtorno obsessivo-compulsivo, entre os principais)
Os transtornos de ansiedade possuem mecanismos fisiolgicos parecidos com os que se associam  depresso  a desregulao das monoaminas, os neurotransmissores reguladores da emoo, comportamento e humor,  a principal causa conhecida. Com vrios sintomas sobrepostos, os problemas costumam vir juntos e um pode predispor o surgimento de outro. Cerca de 85% dos pacientes depressivos apresentam ansiedade concomitante. Em casos como esse, o tratamento  o mesmo para as duas condies, com base no uso de antidepressivos e psicoterapias associadas

Risco (comparao entre depressivos e pessoas sem o problema) 15 vezes maior de ...
... insnia
A insnia e a depresso caminham juntas. Muitas vezes, a relao entre as duas  to estreita que fica difcil definir o que  causa e o que  consequncia. Os insones tm trs vezes mais risco de desenvolver um quadro depressivo do que as pessoas sem alteraes no padro de sono

Risco (comparao entre depressivos e pessoas sem o problema) 4 vezes maior de ...
...alteraes cardiovasculares
Um organismo em depresso tende a aumentar a sntese de cortisol, o hormnio do stress. Essa alterao se associa a uma liberao maior de adrenalina, uma espcie de acelerador do metabolismo. Em quantidades elevadas, essas duas substncias fazem com que a presso arterial aumente e ainda desregulam o ritmo cardaco, fatores associados a doenas cardacas e derrames. O excesso de cortisol pode tambm elevar a quantidade de plaquetas circulantes no sangue, facilitando a coagulao e, consequentemente, o entupimento de um vaso sanguneo. Nesse contexto, a depresso tambm est relacionada ao aumento dos nveis de colesterol ruim e  diminuio das taxas do bom, o que predispe a afeces cardiovasculares. Depois de um infarto, a depresso duplica o risco de morte

Risco (comparao entre depressivos e pessoas sem o problema) 0,5 vezes maior de ...
...doenas de Parkinson e de Alzheimer
A depresso compromete a vitalidade e a comunicao neural. Sem tratamento, leva  morte de neurnios, e a perda de monoaminas pode ser definitiva. A doena favorece tambm as alteraes vasculares, o que pode afetar diretamente a cognio, em especial a memria e a concentrao. Com isso, os depressivos tendem a sofrer com mais frequncia de doenas neurolgicas degenerativas, como Parkinson e Alzheimer

Risco (comparao entre depressivos e pessoas sem o problema) 0,17 vezes maior de ...
....diabetes
O distrbio psiquitrico mais comum entre os diabticos  a depresso. Os mecanismos biolgicos envolvidos na associao entre as duas doenas no esto completamente claros. Alm do fato de que os depressivos em geral no se preocupam com a qualidade de seu estilo de vida, sabe-se que a depresso aumenta a resistncia das clulas  ao do hormnio insulina, o que predispe ao excesso de acar no sangue. A probabilidade de um diabtico sem tratamento adequado ter depresso triplica em relao  de um no diabtico.

FONTES: Rodrigo Machado Vieira, coordenador do Programa de Transtornos do Humor do LIM27, da USP, e Mrcio Bernik, coordenador do Laboratrio de Ansiedade da USP.

AS MAIS MODERNAS LINHAS DE PESQUISA

CETAMINA
O QUE  - Desenvolvida na dcada de 60 para o tratamento dos soldados americanos feridos na Guerra do Vietn, a cetamina  utilizada at hoje como anestsico em pequenas cirurgias de seres humanos e animais. No incio dos anos 2000, foram descobertas as propriedades antidepressivas do medicamento, sobretudo seu efeito rpido, cerca de quarenta minutos depois da aplicao.
COMO AGE -  Como todos os antidepressivos, a cetamina age no hipocampo e no crtex pr-frontal, reas cerebrais associadas  modulao do humor e ao processo de cognio, em especial a memria e o aprendizado. A cetamina atua tambm no crtex cingulado anterior, o que explica a ao rpida do medicamento. 
novas conexes
 Em quantidades bem inferiores s usadas em uma anestesia, o medicamento regula os nveis de glutamato, neurotransmissor com ao excitatria
 Em excesso, o glutamato est relacionado  depresso. Em tal condio, o neurotransmissor  extremamente txico, dificultando e at interrompendo as conexes entre neurnios, as chamadas sinapses
 Ao equilibrar os nveis cerebrais de glutamato, a cetamina no s interrompe a degenerao das sinapses como tambm promove a formao de novas conexes.
INDICAO - Para pacientes que no respondem aos tratamentos tradicionais  o que representa de 30% a 40% de todos os doentes
EFICCIA - 70% dos depressivos apresentam melhoras significativas j nas primeiras horas depois da aplicao. Os efeitos da cetamina como antidepressivo duram duas semanas apenas, o que exige novas aplicaes depois desse perodo ou a continuao do tratamento com outro antidepressivo
FORMA DE ADMINISTRAO  Aplicao endovenosa, feita em hospital, com o acompanhamento de um anestesista, durante cerca de quarenta minutos
EFEITOS COLATERAIS - 10% a 15% dos pacientes tm uma percepo distorcida de tempo e espao  que em nada se assemelha s viagens alucinatrias proporcionadas pela cetamina em p, quando usada como droga recreativa. A principal reao adversa da cetamina como antidepressivo costuma durar em torno de quinze minutos.
Fontes: Rodrigo Machado Vieira, coordenador do Programa de Transtornos do Humor do LIM27, da USP e Priscila Rocco, psiquiatra da Unifesp.

ESTIMULAO CEREBRAL PROFUNDA (DBS)
O QUE  - Inicialmente desenvolvida para tratamento de doenas neurolgicas como Parkinson, a estimulao cerebral profunda  uma tcnica experimental que consiste na implantao de dois eletrodos no crebro do paciente com depresso
COMO AGE -  Aps a anestesia, o cirurgio faz um orifcio de 8 milmetros de dimetro no topo do crnio e implanta dois eletrodos, no crtex cingulado e no ncleo accumbens, reas que esto relacionadas ao controle das emoes
 Fios ligados a uma bateria (implantada no trax do paciente) transportam os impulsos eltricos at os eletrodos. O ritmo  de 100 impulsos eltricos por segundo
 Com isso,  restabelecido o equilbrio eltrico na regio cerebral onde os eletrodos foram colocados, o que estimula a regulao de monoaminas  substncias cerebrais envolvidas no controle das emoes e do humor
INDICAO - Para pacientes graves, que no respondem a nenhum outro tipo de tratamento
EFICCIA - 40% dos doentes, segundo estudos preliminares, ficam livres da depresso e 52% conseguem retomar a rotina, ainda que com alguns sintomas do transtorno
FORMA DE ADMINISTRAO - Cirurgia no crebro
EFEITOS COLATERAIS - So raros os pacientes acometidos de apatia e alterao cognitiva transitria. Mesmo nesses casos,  possvel ajustar os impulsos eltricos de modo a abrandar as reaes adversas. Alm disso, h o risco do procedimento cirrgico em si.

A EVOLUO DOS ANTIDEPRESSIVOS
Os primeiros antidepressivos so dos anos 50. De l para c, todos os medicamentos usados contra a depresso agem sobre monoaminas, neurotransmissores responsveis pela regulao do comportamento, da emoo e do humor. A diferena entre um remdio e outro est no tipo de monoamina sobre o qual cada um deles atua e no perfil do paciente a que se destina. Com eficcia em torno de 40% a 50%, os antidepressivos demoram, em mdia, de trs a quatro semanas para comear a fazer efeito.

Anos 50
TRICDIOS
Mecanismo de Ao: Agem nas quatro principais monoaminas  serotonina, dopamina, noradrenalina e histamina
Indicao: Pacientes com depresso grave e transtornos de ansiedade associados
Efeitos colaterais mais comuns: Boca seca, viso turva, tremores, alteraes cardiovasculares, hipotenso, ganho de peso, reteno urinria e constipao

Anos 60 e 70
INIBIDORES DA MAO
Mecanismo de Ao: Ao inibirem a atividade da enzima monoaminoxidase (MAO), aumentam no crebro a oferta de monoaminas
Indicao: Pacientes vtimas de depresso melanclica, quadro no qual predomina a falta de energia
Efeitos colaterais mais comuns: Aumento de peso, disfuno sexual e alterao do sono

Anos 80
INIBIDORES SELETIVOS DE RECAPTAO DE SEROTONINA (ISRSs)
Mecanismo de Ao: Mais especficos, aumentam a disponibilidade no crebro de apenas uma monoamina, a serotonina, a molcula do bem-estar. O primeiro remdio da classe foi o Prozac
Indicao: Todos os pacientes
Efeitos colaterais mais comuns: Nusea, inquietao, disfuno sexual, dor de cabea, ansiedade e insnia

Anos 90
INIBIDORES SELETIVOS DE RECEPTAO DE SEROTONINA E NORADRENALINA (IRSNs)
Mecanismo de Ao: Conhecidos como antidepressivos duplos, agem tanto em serotonina quanto em noradrenalina. Juntos, os dois neurotransmissores participam da regulao do humor e da cognio
Indicao: Pacientes com depresses mais graves e transtornos de ansiedade associados
Efeitos colaterais mais comuns: Nusea, sonolncia, tontura, ansiedade e disfuno sexual

INIBIDOR SELETIVO DE RECAPTAO DE DOPAMINA E NORADRENALINA (IRDN)
Mecanismo de Ao: Entre os medicamentos mais modernos,  o primeiro sem ao em serotonina. Ele atua somente em dopamina e noradrenalina, que esto associadas ao controle de impulsos e da motivao
Indicao: Depressivos graves e pacientes com dependncia qumica associada
Efeitos colaterais mais comuns: Dor de cabea, insnia, nusea, irritabilidade e tontura

Anos 2000
AGONISTA DE MELATONINA
Mecanismo de Ao: Estimula a produo de melatonina, hormnio regulador do sono, e, com isso, facilita a liberao de noradrenalina e dopamina, estabilizando o humor e melhorando as funes cognitivas
Indicao: Pacientes com depresso associada a insnia ou ansiedade
Efeitos colaterais mais comuns: Dor de cabea, nuseas, sonolncia e tontura

OUTRAS FORMAS DE TRATAMENTO

ELETROCONVULSOTERAPIA (ECT)
Como funciona: Desenvolvida na dcada de 30, regula a atividade cerebral mediante o uso de descargas eltricas. Hoje, alm de o paciente ser anestesiado durante o procedimento, os choques so mais bem controlados pelos mdicos. Atingem sobretudo o sistema lmbico, rea cerebral relacionada  modulao do humor e ao controle das emoes
Indicao: Pacientes graves, que no respondem a nenhum outro tratamento
Eficcia: 70%
Efeitos colaterais mais comuns: Enjoo, associado  anestesia, dor de cabea e muscular e alterao de memria temporria

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL (TCC)
Como funciona: Modifica os padres de comportamento comuns entre os depressivos. O mtodo utiliza dados da realidade e exerccios para alterar os comandos cerebrais que acionam os pensamentos distorcidos
Indicao: Para a depresso leve e, no caso de pacientes moderados e graves, combinada ao tratamento com antidepressivos
Eficcia: 40% e de 60% a 70%, quando associada aos medicamentos
Efeitos colaterais mais comuns: No h

ESTIMULAO MAGNTICA TRANSCRANIANA (TMS)
Como funciona: Desenvolvida no fim dos anos 90, tem um mecanismo de ao semelhante  eletroconvulsoterapia, mas, em vez de usar corrente eltrica, utiliza corrente magntica. No requer anestesia
Indicao: Pacientes leves e moderados
Eficcia: Entre 40% e 50%
Efeitos colaterais mais comuns: Dor de cabea, zumbido e vermelhido na rea da aplicao.

Fonte: Rodrigo Machado Vieira, coordenador do Programa de Transtornos do Humor do LIM27, da USP.


12. TECNOLOGIA  UMA ILHA EM MEIO  CRISE
Com investimento macio em pesquisa, o setor de telecomunicaes em Portugal vai na contramo das dificuldades do pas.
FERNANDA ALLEGRETTI, DE LISBOA

     Portugal tem uma dvida pblica de 200 bilhes de euros, o que equivale a 117,5% do seu PIB, e  o terceiro pas mais afetado pela crise econmica europeia  depois da Grcia e da Itlia. Em meio a esse cenrio, h um setor no pas que floresce na contramo das ms notcias: o das telecomunicaes. Nele, a tecnologia instalada em Portugal se iguala  de pases mais adiantados. A rede de telefonia mvel de quarta gerao, ou 4G, que ainda se encontra em fase de teste no Brasil e deve comear a operar entre dezembro deste ano e abril do ano que vem, j est disponvel para 90% dos portugueses. A fibra ptica j chega a 50% das residncias e empresas portuguesas. Atende 5 milhes de pessoas, inclusive aquelas que moram em regies predominantemente rurais, como o Douro e o Alentejo. No Brasil, pouco mais de 1 milho de pessoas podem contar com essa tecnologia, a maioria delas em So Paulo e no Rio de Janeiro.
     A fibra ptica  a rede de transmisso de dados mais moderna que existe. Ela substitui o fio de cobre para levar sinal de banda larga, TV por assinatura e telefonia fixa. No traz melhora na qualidade das ligaes, mas deixa a internet dez vezes mais veloz em comparao com as conexes que utilizam fio de cobre. Em relao  TV paga, possibilita que um nico ponto transmita a programao a todos os aparelhos da casa. H trs semanas, enquanto os jornais portugueses noticiavam um novo recorde de desemprego, com 15% da populao ativa sem trabalho, a Portugal Telecom, a maior empresa de telecomunicaes do pas e que, no Brasil, tem participao de 25% na Oi, promoveu em Lisboa uma reunio de bancos e fundos de investimento. Juntas, as entidades presentes tinham o poder de investimento de 1 trilho de dlares, quatro vezes o PIB de Portugal.
     Durante dois dias, num centro de conferncias  beira do Rio Tejo, os convidados eram recebidos num salo onde podiam testar as inovaes tecnolgicas desenvolvidas pela Portugal Telecom. Entre elas est a Meo TV, servio de televiso por assinatura que chega ao Brasil em dezembro com o nome de Oi TV. A Meo TV permite assistir ao que foi exibido em todos os canais nas trs horas anteriores ao instante em que se liga o televisor. Isso sem a necessidade de gravao. Outra facilidade  acessar a programao do tablet, notebook ou smartphone. O objetivo da conferncia de inovao e tecnologia foi mostrar aos investidores como a Portugal Telecom oferece os servios mais avanados a seus clientes, explicou Ablio Martins, vice-presidente da companhia no Brasil. Para manter os negcios fluindo mesmo durante a recesso, a Portugal Telecom manteve o investimento em novas tecnologias  em 2011, foram 2,7 bilhes de euros destinados  pesquisa  e adaptou seu cardpio de servios  renda mais enxuta do consumidor. Ajudou tambm o fato de 60% da receita da empresa vir de seus investimentos no exterior.
     Ao mesmo tempo em que tentam no naufragar em meio ao tsunami econmico, as companhias de telecomunicaes portuguesas enfrentam uma mudana profunda em seu modelo de negcios. Com a rede 4G e a popularizao dos smartphones, as ligaes devem ser progressivamente substitudas pelos servios de dados, que so todos aqueles que no utilizam ligaes comuns de voz, como internet e SMS. Essa alterao de rota no  um fenmeno restrito ao pas.  uma tendncia mundial. O que chama ateno  a velocidade com que as inovaes so implementadas nas cidades portuguesas. Ainda que as empresas de telecomunicaes do pas no sejam to geis em criar novas tecnologias  as principais referncias do setor so Japo, Coreia do Sul e Estados Unidos , sua modernidade, num pas que enfrenta enormes dificuldades econmicas,  um bom exemplo de que com planejamento e investimento em pesquisa  possvel ir em frente mesmo no mar revolto da economia mundial.


O SEGREDO  INVESTIR EM INOVAO
Zeinal Bava, de 47 anos, h quatro ocupa o cargo de presidente executivo da Portugal Telecom. Nascido em Moambique, morou em Portugal na adolescncia e, depois, em Londres, onde se formou em engenharia eltrica e eletrnica. Bava foi o grande responsvel por modernizar e expandir os negcios da Portugal Telecom para o Brasil e para pases africanos de lngua portuguesa. Durante a Conferncia de Tecnologia e Inovao, ele falou a VEJA.

As empresas de telecomunicaes esto em um momento de mudana, em que precisam oferecer outros servios alm das ligaes. Como o senhor v essa transio? 
Acho positiva porque vamos contribuir para facilitar a vida das pessoas, de nossos clientes. Antes, oferecamos s ligaes. Depois, com o aumento de trfego de dados, o nmero de ligaes comeou a cair e passamos a oferecer servios de telefonia e internet. Agora, oferecemos tambm televiso. A empresa que quiser se manter no mercado ter de expandir as ofertas de servios.

A frica tem o mercado de celulares que cresce mais rapidamente no mundo. O nmero de ligaes tambm est caindo por l? 
No, a frica ainda tem um potencial grande de crescimento tanto no que diz respeito ao nmero de aparelhos quanto na quantidade de ligaes. Uma caracterstica particular dos pases africanos  que eles utilizam muitos servios de transferncia de dinheiro via celular. O programa mais conhecido  o M-Pesa. Funciona da seguinte maneira: o usurio vai at uma loja da empresa que oferece o servio e carrega o celular com o valor desejado. Um simples SMS transfere a quantia a outra pessoa. Para sacar o dinheiro,  preciso ir a uma loja e mostrar o SMS junto com um documento de identidade.

Os brasileiros sofrem com a qualidade do servio de telecomunicaes. Ele  caro, as ligaes caem, o sinal das redes  falho e o atendimento ao cliente  sofrvel. O 4G pode melhorar esse cenrio? 
Pode, mas toda nova tecnologia chega mais cara. Com o tempo, as tarifas e os aparelhos ficam mais baratos e se popularizam. Acredito que a qualidade dos servios prestados v melhorar progressivamente no Brasil. No  interessante para nenhuma companhia ser recordista em reclamaes.


13. TECNOLOGIA  O COMPLICADO DE LUXO
O mundo digital chega aos relgios de mltiplas funes, as chamadas complicaes. So modelos que seduzem os colecionadores e custam carssimo.

     No vocabulrio dos colecionadores de relgios luxuosos e caros, complicaes so todas as outras funes do aparelho que no sejam marcar as horas  desde atuar como cronmetro at indicar as fases da Lua. Os relgios cheios de complicaes so clssicos e, como tais, funcionam mecanicamente. Agora, no entanto, passam por uma das poucas inovaes em sua histria  comeam a surgir os primeiros modelos digitais. O que mais tem chamado a ateno dos especialistas  o Slyde, criado pela sua HD3 no ano passado e que em dezembro ganha sua segunda verso.
     Pode-se dizer que o Slyde  o iPad dos relgios. Tem tela de cristal de safira touchscreen com sensor de movimento. Para ativ-lo e ver as horas, basta girar o pulso ou dar um toque na tela. Ao deslizar os dedos sobre a tela, navega-se entre sete complicaes. Movimentos verticais dos dedos do acesso s fases da Lua e ao cronmetro. Horizontalmente, aparecem as fotos que foram arquivadas (o aparelho comporta at vinte imagens).  possvel consultar a hora em quarenta cidades, armazenadas na memria. Em verses futuras, ele poder ser equipado com vdeos e aplicativos. Embora o Slyde seja 100% digital, seus mostradores tm aparncia de engrenagens mecnicas para virar minutos e segundos. H desde verses de ao inoxidvel at as de titnio com detalhes em diamante. Disse a VEJA o designer suo Jorg Hysek, o criador do modelo: Quando voc compra um relgio de luxo, no o faz s pela funcionalidade, mas tambm pelo apelo. O Slyde tem design, material e acabamento iguais aos dos melhores modelos mecnicos. Os preos do Slyde tambm so semelhantes: vo de 6800 a 16.000 dlares.
     Os relgios com complicaes existem desde o tempo dos modelos de bolso. Surgiram a partir de necessidades profissionais, como cronometrar as corridas de cavalo. Com o passar do tempo, tornaram-se sinnimo de qualidade e motivo de competio velada entre proprietrios. Quanto mais funes um relgio tem, mais complexa  a tecnologia que sua caixa abriga. Cada nova complicao acrescenta de 15% a 40% de peas no mecanismo. Isso vale para os modelos mecnicos. Os digitais, evidentemente, funcionam com chip.  o clssico modernizado.
GUSTAVO SIMON


14. EDUCAO  FAMOSOS, MILIONRIOS E... PROFESSORES
Na Coreia do Sul, onde o ensino  obsesso nacional, quem se destaca por dar boas aulas atrai multides de alunos, vira celebridade e at distribui autgrafos.
MONICA WEINBERG DE SEUL

     Os cabelos cuidadosamente repicados ficam ao sabor do vento quando Woo Hyeong-Cheol rasga as ruas de Seul a bordo de seu Mercedes conversvel. Ele guarda o tesouro na garagem do confortvel apartamento onde convivem lado a lado um tapete de zebra comprado no Qunia, porcelanas do Egito e um vidrinho de Chanel n 5 para trazer ao ambiente os ares de Paris. Aos 43 anos, Woo j se habituou a ser abordado aos gritos de  ele!  ele!. D autgrafos como uma tarefa mecnica,  qual se acostumou depois que passou a ter fama e dinheiro. De culos escuros e com uma camisa florida que deixa entrever um pesado pingente brilhante, Woo tem pinta e conta bancria compatveis com as de certas estrelas do pop coreano. Mas foi alado ao olimpo dos milionrios da Coreia do Sul trilhando um caminho bem menos previsvel  e surpreendente aos olhos de qualquer brasileiro: ele  professor. Seu ttulo informal, Salvador dos Fracassados na Matemtica, ajuda a entender sua reputao em um pas onde o desempenho escolar  obsesso nacional. Quanto mais alunos tm sucesso comigo, mais eu consigo atrair, e assim me mantenho na elite, explica o mestre, com a mesma capacidade de sntese que usa para ensinar sua matria.
     Woo integra um grupo de professores cujas aulas so acompanhadas todos os dias por centenas de milhares de estudantes que os veneram. A internet foi um divisor de guas em sua vida e na dos outros mestres-celebridade. Essa turma j tinha acumulado certo dinheiro e notoriedade  algo que eles conquistaram alando seus alunos ao topo e reforaram com aparies na TV e em outdoors nos quais sobressaem seus sorrisos alvos. Mas esses professores jamais alcanariam tanta projeo na era pr-web. Eles no so os nicos no mundo a ver sua carreira na docncia impulsionada pela rede  a popularizao da educao online  um fenmeno mundial e crescente. Em poucos pases, porm, se disseminou por todos os nveis do ensino e por uma parcela to grande da populao: oito de cada dez alunos coreanos frequentam uma sala de aula virtual  s Hong Kong e Singapura chegam perto. Por isso, os feitos acadmicos de Woo e de seus colegas se tornaram assunto corrente nas rodas de especialistas interessados em aliar tecnologia e educao.
     A rotina dos que despontaram para a fama inclui liturgias dignas de pop star. O professor de ingls Andrew Kim, 43 anos, no sai de casa sem uma generosa camada de base para disfarar o brilho da face. Usa ternos Hugo Boss de corte impecvel, vive cercado de gente que o assessora na produo das aulas e vai  escola de motorista. Sua ascenso  visvel. Ele mora no Tower Palace, conjunto de apartamentos de 3000 metros quadrados de rea que custam at 10 milhes de dlares. Sua residncia fica em Gangnam, o endereo dos novos endinheirados de Seul, lugar que ganhou sbita visibilidade depois de um certo rapper Psy estourar na internet com um clipe em que desancava o estilo de vida local. Muitas escolas que servem de palco para os mestres mais cultuados do pas funcionam ali, vizinhas a clnicas de cirurgia plstica e s grifes internacionais da Rodeo Street (que faz lembrar mesmo a luxuosssima Rodeo Drive de Beverly Hills, da qual roubou o nome). Kim tem ainda uma casa em Chino Hills, a uma hora de Los Angeles, onde cultiva uma adega com mimos como um Chteau Margaux safra 2000 e recicla, digamos assim, as ideias para novos livros e apostilas que levam a sua marca  atividade que tambm refora o caixa de seus colegas. Ali joga golfe e vai s livrarias. Se gosto de um livro, fao o resumo de pargrafos inteiros e o uso em minhas prprias publicaes, explica sem nenhuma cerimnia.
     Ele e os outros no ensinam em escolas convencionais, mas nas chamadas hagwons  instituies privadas especializadas em dar aulas de reforo depois da j extenuante jornada de estudos coreana. So comuns na sia. Na Coreia, h mais de 30.000 delas, fazendo mover uma indstria que fatura 15 bilhes de dlares por ano e consome mais da metade do oramento de uma famlia. Maior de todas as hagwons, a Megastudy j figura entre os negcios na rea de tecnologia que mais crescem no pas. Veem-se l crianas a partir de 6, 7 anos. So raras as que no frequentam essas escolas. O objetivo de esforos to exageradamente precoces  preparar-se para vencer a dura peneira que aguarda a todos na juventude, quando enfrentaro o exame de ingresso na universidade. Conseguir uma vaga na elite do ensino superior coreano  decisivo para conquistar um bom posto no mercado de trabalho e ter status na vida. Em dia de prova, nem mesmo os avies decolam  tudo em prol do silncio e da concentrao. Essa alta demanda por educao  um campo frtil para que os bons professores enriqueam, avalia Lee Mankee, 52 anos, ele prprio uma ex-celebridade das salas de aula, hoje dedicado  produo de material didtico. Mudou de ares por duas razes: j tinha 3 milhes de dlares na poupana e cansou de ser um produto.
     A concorrncia para chegar ao olimpo da docncia  vencida por poucos. Em cada disciplina, no mais do que uma dezena de mestres j ultrapassou a barreira dos 100.000 alunos e amealhou cifras milionrias. O que fez com que se despregassem da mdia no foi uma vocao fora do comum  algo que outros menos famosos talvez tenham at em mais alto grau  mas a habilidade para organizar as ideias, focar o principal e criar ambientes desafiantes. Eles so at bastante criucados na Coreia, onde alguns os tm como o retrato acabado de uma indstria criada para fazer passar nos exames e triturar os alunos. Essa  certamente uma parte da histria, mas no a nica. Afinal, os estudantes coreanos esto no pdio do ensino mundial. E  essa mesma indstria ora demonizada que tambm vem se encarregando de tornar o ensino acessvel a mais gente, via internet. Um pacote mensal ministrado por uma estrela da docncia sai em torno de 80 dlares  dos quais os professores embolsam cerca de 30%.
     Respirar o mesmo ar que essas celebridades custa mais caro e requer pacincia. Ao vivo, o preo da aula  de 100 dlares, e formam-se filas de meses por uma carteira. As pessoas no esperam para ver O Rei Leo na Broadway? Por que no fazer o mesmo por uma boa lio?, compara Woo. Ele e os outros chegam a dar palestras em grandes arenas diante de multides de estudantes e pais entre curiosos e embevecidos. A remunerao milionria  nestas pginas ela oscila entre 2 e 5 milhes de dlares por ano  explica-se justamente pela escala que eles alcanam. Gravo at dez aulas de matemtica por dia. No d para parar, diz Kwon Ku-Ho, 32 anos, pupilo de Woo, que seguiu com disciplina coreana as palavras do mestre: passou trs anos sem engatar um namoro srio e devotou dias e noites ao aprimoramento de exerccios, tcnica e estilo. Virou celebridade.
     O estudo j era exaltado na Coreia sob a influncia confucionista cinco sculos atrs. Nos anos 1950, nem mesmo a guerra entre norte e sul paralisou as aulas, dadas sob lonas improvisadas em meio aos destroos. A revoluo que fez do pas um dos melhores do mundo no ensino se iniciaria uma dcada depois. Foi a que o governo decidiu conceder aos professores os mais altos salrios de todo o funcionalismo pblico. Poucos profissionais no pas desfrutam tanto prestgio. Poucos tambm tm o desempenho to vigiado de perto. Os pais so implacveis na hora de se arvorar em prol da qualidade e no baixam a guarda em casa. O computador os tem ajudado. Se um estudante ameaar deixar sua lio virtual antes do fim, ver surgir na tela uma mensagem certeira enviada pela Megastudy  a meca dos pop stars da sala de aula: No desconecte. Sua me agradece.

CONTA BANCRIA E JEITO DE ARTISTA - Woo Hyeong-Cheol, 43 anos, graduou-se em engenharia do petrleo, mas foi na sala de aula que despontou para a fama e comeou a ganhar dinheiro de verdade. Mais de 100.000 estudantes assistem na internet s suas entusiasmadas aulas de matemtica.  uma turma que tambm consome avidamente os livros com a sua grife e ajuda a elevar seu rendimento a cifras inimaginveis para um professor: 5 milhes de dlares por ano. A arma de Woo  o boca a boca. Meus alunos sempre so aprovados nas melhores universidades do pas, gaba-se o mestre, a bordo do Mercedes conversvel com o qual vai  escola. As vezes Woo  interceptado aos gritos de E ele! E ele!. Distribui autgrafos e pisa firme no acelerador.

 GANGNAM  A CASA DELE  No  fcil chegar ao olimpo da docncia na Coreia. O professor de ingls Andrew Kim, 43 anos, conta que, s vezes, a guerra  suja.  J tentaram at difam-lo na rede, mas sua reputao ficou inabalada. Se voc  eficiente, no tem conversa, dispara Kim, que vive em um apartamento de 3000 metros quadrados em um dos luxuosos condomnios de Gangnam, o bairro dos novos endinheirados de Seul.  Ele passa frias na Califrnia, onde tem uma casa com uma valiosa adega, toca Beatles no violo e frequenta livrarias. Se gosto do livro, fao o resumo de pargrafos inteiros e o uso em minhas publicaes, diz, bem  vontade.

CANSEI DE SER UM PRODUTO - O professor de coreano Lee Mankee, 52 anos, era estrela de um programa da TV estatal quando recebeu uma proposta da escola Megastudy, a meca dos professores-celebridade na Coreia. Cheguei l com o prestgio dos artistas que esto em alta, lembra Lee. Depois de juntar mais de 3 milhes de dlares em trs anos, saiu para produzir material didtico. Muita gente ainda o reconhece e o chama de Professor do Povo, como era conhecido antes. Ganhei fama e dinheiro, mas cansei de ser um produto. Agora s quero  paz, filosofa Lee.

DA NOVA GERAO - Kwon Kyu-Ho, 32 anos, e a equipe que o assessora em suas aulas de matemtica trabalham todos os dias vestidos assim, com a camisa da seleo brasileira  unida e vencedora. Kwon passou trs anos sem engatar um namoro firme, dedicado apenas ao aprimoramento de sua tcnica e estilo. Tudo aconteceu como planejado: cravou seu primeiro milho de dlares em 2011 e tornou-se a mais nova celebridade das salas de aula na Coreia. Gravo at dez aulas por dia. Quero aproveitar que estou no auge, diz.


